O aluno entra na sala. O professor, sentado, já o espera. Inicia-se o discurso, não feito de palavras soltas. Antes, por uma linguagem corporal assaz eloquente, persuasiva. Vivemos em tempos modernos. Criticamente moderno, onde o novo copia o antigo. Um detestado por outro, um evocado pelo outro. E desta feita, assim se faz, monta-se o quadro, a cena, o palco, os atores, professores, alunos e todo o resto. Os últimos acompanham os primeiros, que outrora também foram últimos, que se presumiam, apressadamente, "primeiros." Assim se pensa. Exatamente isso, assim se pensa. De segunda a sexta, com um grau maior ou menor de flexibilidade, tudo flui, tudo se intenta, o plano de aula na aula segue (e tão somente na aula), até que o tempo a separe de outra, ou estas de um intervalo.
Passado este interregno, o aluno novamente senta, e o professor, como sempre, já o espera. Mas espera pouco. O tempo corre. O professor é remunerado em função do tempo, o aluno recompensado em função do espaço: o lugar onde senta. Trabalha-se o conteúdo tal como o palhaço no circo: há certa novidade nem tanto nas apresentações, mas na forma como é apresentada. Na prática, tudo redunda no mesmo. Que não se ofendam com a analogia. O palhaço também não se ofende com seu trabalho.
Sou persuadido a dizer que, onde se percebe padrões, supõe-se uma "intelligentia" apriorística. Apesar dela ser em si mesma boa, não presume-se tão apressadamente sua qualidade pelo simples fato de se perceber padrões. Algo pode ser criado, mas não bem pensado, ou não tão bem pensado e satisfatoriamente criado. De repente vivemos um modelo onde as coisas se revezam nesta lógica. Aí, quando se pensa, já se fez, e revolvendo-se em pedagógico remorso, pensa-se mais, e novamente não atingindo seu intento, reelabora-se o discurso, que redunda novamente em sua eterna e cíclica redundância. Sim, o tempo não para de redundar, quando se pensam, criativamente, nas mesmas coisas. Os atores mudam, as coisas não. O gênero nunca perece.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014
Penso que a Educação deva passar por um processo de purificação dos seus conceitos e princípios. E não vejo hora mais oportuna do que esta. Precisa se libertar de todo entulhamento a que fora acometida. É uma tal de escola nova com suas recicladas ideologias, um tal progressismo que, no intuito de estreitar a relação professor/aluno, quase que solapa até a base a necessária relação hierárquica, que em si mesma é e sempre haverá de ser saudável. De repente, valoriza-se o novo simplesmente pelo ar de novidade que exala. E Desprezamos o antigo pelo simples fato der "velho". Enrugamos forçosamente o passado, como se o tempo em si envelhecesse. Também as plásticas são forçosas, já que não-naturais. Talvez o futuro a que aspiramos não passa de uma projeção estética, vazia de conteúdo. Poucos transcendem a aparência. De repente levantam-se vozes acusando até então uma novidade "ad aeternum": há oprimidos e opressores também em matéria de educação. Mas uma impressão intuitiva me alertou para algo não menos interessante: não se estaria justificando a realidade da opressão exagerando-se, pois, a realidade do oprimido? Iisto não beira mais a ideologia do que algo "ipso facto"?
A Educação parece hoje que vê o mundo com este olhar de soslaio, e que se prende demais a pequenas estruturas, pequenos recortes da realidade com suas teorias (algumas mais queridas que outras). Assim como ocorre com os fractais, em que , tanto uma pequena estrutura quanto o todo mesmo possuem a mesma forma, também a educação quer construir e reconstruir sua identidade com as mesmas e limitadas teorias. Acontece com a Educação o que acontece com nossa personalidade: quando reprimida demais em regras, namoramos o liberalismo, esbarramos na libertinagem, passamos por uma ressaca moral, e qual náufrago na iminência de afogar-se, aninha-se desesperadamente a qualquer objeto que flutue e lhe sirva de âncora. Temo justamente estas últimas. As boias que lançam frequentemente para que aquela não se afogue tem odor de socialismo, tem cariz de comunismo, tem uma essência que, sei lá, não se mistura com aquilo que é o substrato da educação. O mundo tem estrutura e ordem, o saber adquirido é antes um saber hierarquizado, um permanente "sine qua non", e não significado meramente subjetivo na cabecinha de cada aluno. A própria didática contradiz com silenciosos berros a toda esta filosofia "socializante" do ensino, do saber e de seu sistema.
Dias virão em que o professor terá orgulho de si, e não deixará medir sua importância no mundo pela métrica do dinheiro, salário, abono, remuneração. Sonho com este dia, em que vejo esse professorado feliz, com elevada autoestima, sem afetações de orgulho ou falsa humildade, plenamente consciente de si e bem consciente de sua posição no mundo, de sua postura política, moral, social e "humana". Um professorado que tem por motivação constante a busca sincera pela verdade, e a coragem de transmiti-la. Um professorado que, olhando para trás, se orgulha do que fez, porque nunca olhou para trás quando ainda não havia alcançado o seu sonho. A sociedade dele depende. O professor é este tesoureiro da cidadania. Do mais modesto ao mais eminente homem, todos passaram por sua antessala, que é um ensaio do mundo, a moldura da sociedade. Cabe a ele formar a imagem fiel do homem bem sucedido ou sua hedionda caricatura. Mas que este último não aconteça nas mãos deste professorado feliz.
A distância física na sala de aula favorece a distância emocional, que favorece certos escrúpulos em relação a um ou outro colega distante, que favorece animosidades escrupulosas, que alimenta a mesma animosidade, até que surge inimizades tolas. Algumas pessoas não descansam enquanto não se cansam. Quando estão bem com os outros, estão mal, mas quando estão mal, aí é que se sentem bem. Esquisito, mas é assim que acontece.
Um alimento poderoso para as animosidades é um corrosivo natural: a fofoca. Ela destrói as boas relações de fato e as potenciais relações. Ela destrói aquela saudável curiosidade em conhecer melhor um companheiro de sala de aula: do sorriso outrora visto, nasce, da noite pro dia, um rosto sisudo, lábios cerrados, expressão fechada, olhar vago, falta de afeto. Se é verdade ou não aquilo que ouvem os ouvidos, ou o que se supõe ver, não importa. A fofoca tem boca torta. É o que na linguagem jurídica se chama "erro de tipo". Na Psicologia, podemos avaliar erradamente um fato, mas a resposta emocional ser perfeitamente adequada. Mas assim como a luz tanto mais difusa fica quanto mais distante está do observador, a fofoca é tanto mais corrosiva quanto mais longe da verdade. O ouvido tanto mais enganado quanto mais inclinado para estas frivolidades. Mas quem se ressente com a fofoca ou nela acredita, não erra tanto na avaliação do fato: erra mais em dar-lhe ouvidos.
Já dizia Guimarães Rosa: "as pessoas afinam e desafinam." Mas com que artificialidade mesquinha nós tratamos o natural desafino de nossos colegas? Quanta incoerência! Se desafinamos com o mal, temos antes um severo potencial para afirmarmos no bem, e criarmos essa admirável sintonia fina entre as pessoas! E por que não percebemos isso? Temos um olhar treinado para perceber aquilo que desafina, como um fim em si mesmo, e mesmo sem fim. Ora, ninguém nasce para si mesmo, ninguém deu a vida para si mesmo, e ninguém realiza a si mesmo sem o outro. Isolar-se é a atitude mais ignorante da ignorância. Negar um sorriso é atitude indecorosa, indelicada, imbecil. Esta lógica é tão exponencial quanto quadrada. Sim, merece o adjetivo que tem, pois é uma lógica burra.
Sabemos que todo mal exige reparação. A justiça o exige. Quebrar um vidro até merece perdão (como todo erro), mas não concerta o mesmo vidro quebrado. Da mesma forma, que gostosa reparação não seria um sorriso cativante dos que estão lá na frente, e também dos que estão lá atrás, do lado direito e esquerdo. Dos que entram e saem da mesma sala, ambiente de todos. Uma imagem caricaturada merece necessária desambiguação. O entulhamento de uma personalidade merece um honesto processo de limpeza, sobretudo ética, moral. Se é dura a reparação, visto que o orgulho se levanta como barreira ou falsa defesa, muito melhor seria se não os cometêssemos. Mas o que importa o erro? O perdão é sempre gratuito, o amor é sempre gratuito, e quem não tiver a necessária força para reparar, estamos aqui muito mais para amar do que para condenar. Afinal, faço questão de oferecer a melhor imagem, de formar nos outros a melhor imagem, e mesmo desafinando, a perfeição é a meta de nossa própria imagem.
Curioso fato acontece em nossas escolas, e com esquisita frequência: pressupõe acelerar quem deveria ficar retido, e tende a reter quem revela consistente potencial a um desempenho acadêmico elevado. Tudo isso indica, forma e limita o aluno pela média, para a média e enquanto média. Os extremos são colocados de lado, desprezados enquanto não incluídos neste eterno ciclo do mesmo. Não trata os desiguais como desiguais, mas a todos igualam para instrumentalizar melhor este conceito frustrado de educação emancipatória. Os extremos caem numa desastrosa retórica: enquanto exceção, confirmam a triste regra. Mas é fundamental que, para mudar esta realidade, seja imprescindível à exceção subsistir enquanto tal.
Sabe aquela aula em que o professor repete duzentas e setenta e nove vezes uma coisa que você já sabe há zilhões de anos, quando basta-nos um só exemplo para entendermos o assunto? Isto pode ser sinal de grande interesse, motivação, potencialidade.
Sabe aquela aula em que o professor repete duzentas e setenta e nove vezes uma coisa que você deveria dominar há zilhões de anos e que não entra em sua cabeça, ainda que memorizável desde a primeira repetição? Isto pode ser sinal de tédio, desinteresse.
Em ambos os casos, isso pode ser sinal de uma grande inteligência desperdiçada...
As pessoas não iguais, ou melhor, não é sadia uma igualdade que cria um "nivelamento a rodo", nivelamento que nem mesmo na natureza se encontra. Eis aí uma forma de violência muito velada. E toda violência é uma negação do desenvolvimento de uma pessoa. E esta negação da pessoa é a negação da própria Pedagogia.
Sabe aquele provérbio japonês: o prego que sobressai é logo martelado"? Quem sobressai na sala de aula logo é tratado como orgulhoso, inquieto (lógico, alguém perguntou se ele sabe ou não isto ou aquilo? A Velocidade com que aprende as coisas? Cadê a avaliação diagnóstica?!), importuno, arrogante. É taxado de nerd, o "sabe tudo" (só quem sabe tudo é Deus), alvo de expectativas estratosféricas, irreais, burlescas. Grande injustiça. O aluno crítico incomoda, e veja - nos discursos, falamos muito bem em valorizar talentos, pessoas emancipadas, críticas e conscientes. E quando nos deparamos com eles, é como quem vê sem enxergar, ouve sem escutar, sente sem qualquer sensibilidade. A escola (incluindo a faculdade) é ambiente especialista em matar, sufocar, estrangular, degolar a sangue frio toda espécie de boa dotação e talento. O aluno diferenciado é obrigado a se conformar numa falácia de bifurcação: ou permanecendo calado, incomodado porque não incomoda, ou conformado com a "média", ainda que acima dela.
A escola desempenha um papel importantíssimo na sociedade que se presume aprendente. Possuindo potencial metafísico e inclinação à criatividade, seu produto mais premente e historicamente original é o aluno idílico, incorpóreo, intangível. As metáforas não param por aí: aluno inflável, movido a hélio, rarefeito, que se desenvolve rumo à axiologia do nada. Fiel às suas origens, este imaginário aluno possui uma essência epistemológica curiosa. Sim, essência tanto no sentido de origem, singularidade, razão de ser ou (não ser), quanto questão de atributo, característica, cognoscível por razões estéticas.
A Educação retesou seu velho bodoque, mirou aonde o nariz apontou, lançando infindos dardos no espaço-tempo; e por falta de precisão, atirou todos no vazio, no intangível, acertando-o em cheio! Até porque se o incorpóreo encontra-se em toda parte, é possível que não se faça notar em lugar nenhum. Aquilo a que chamamos de "nada" ou de pouca importância, parece fazer muito sentido na ciência (enquanto saber) do educar. E este nada é você, oh imaginário, sim, você, que diz ser alguma coisa, contrariando toda hermenêutica, porquanto presume ser o que é propriamente. E desta forma, escola te cerca e te apreende!
A realidade, em toda sua bela consciência e vontade, ainda que escusada, ignorada num canto qualquer, passa em branco com seu vivaz colorido. Falo deste canto na perspectiva Drummoniana, visto duma poética janela chamada ponto de vista, introspectivo, por sinal, mas bem preciso. E este canto é o mundo. O seu mundo, com seus significados. A janela, não sei de quem...
Oh funesta Educação, que em sua triste realidade e tão pobre de realismo, não lida bem com abstrações! Uma covardia e tanto! Todo algo sem forma vaza e intenta assumir a forma das coisas definidas, mesmo sendo estas de difícil ou nenhuma definição idiossincrásica. Oh educação que não se define! Perderá toda sua essência concreta, sólida e perene, inclinando-se, por necessária conclusão e consequência, ao ilusionismo (uma desonestidade intelectual, pois a mente foi feita para conhecer a realidade e a verdade), afastando-se até mesmo de padrões filosóficos, que exige uma definição radical, rigorosa e de conjunto daquilo que é em si mesmo, da sua razão de ser.
Educação Orientada a Projetos
Seria interessante ver uma escola onde o currículo seja orientado fundamentalmente a projetos, com a participação efetiva de todos os alunos (sujeito principal) na resolução de situações-problema, na experimentação, enxergando toda exposição teórica como uma ferramenta prática, aplicável. Sua implantação ocorreria e se fundamentaria em substituição ao processo avaliativo por meio de provas dissertativas e optativas, sem mitigar, obviamente, a necessária hierarquia dos conteúdos e das séries (ao contrário da tendência comunista e socialista do ensino). A razão de ser da didática está na sistematização e ordenação do saber.
Ora, onde está a ordem, necessariamente está a hierarquia. Tudo o que faz sentido, na mente e no mundo, tem sua estrutura hierárquica. Caso contrário, teríamos sérios problemas em resolver conflitos de valores em nossa sociedade, porquanto não teríamos diretrizes alguma.
O aluno deve ser orientado para projetos, e não para as provas. O sucesso de seu empreendimento mede o sucesso de seus estudos. Não vejo instrumento melhor de se praticar todas as habilidades necessárias para o êxito do educando senão por essa via. Entendemos por projeto um conjunto de atividades e recursos (neste caso pedagógicos) no intuito de se criar um produto único, singular e que funcione no cotidiano. Aqui importa fazer uma diferenciação: por que projeto e não interdisciplinaridade? Escolho a primeira, não em detrimento desta última, porque aquela tem sentido mais direto, pragmático. Ao se falar em interdisciplinaridade, ainda existe grande risco de se aglutinar matérias num tema em comum e nada ser produzido pela sinergia entre elas. Tal não ocorre em grande escala nos projetos, pois este só possui razão de ser quando for planejado, executado, controlado (avaliando sua execução passo a passo) e finalizado. E, claro, sua finalização, tanto no sentido de término quanto de intencionalidade, é um produto executável.
A interdisciplinaridade (ou transdisciplinaridade,etc) não trabalha, necessariamente desta forma, com esta metodologia, e talvez nem com a mesma finalidade.
Sabemos que, quanto mais nos envolvemos numa atividade programada, mais clareza temos de seu processo, mais objetivo fica nosso raciocínio, mais arguta nossa memória, mais afiadas nossas capacidades intelectivas, e estes elementos reunidos contribuem fortemente para manter acesa nossa motivação, ainda que com pouco estímulo externo. A escola pretende, transcendendo o plano teorético, identificar, fomentar, desenvolver, aprimorar e avaliar não só o conhecimento adquirido, mas as habilidades sociais e psicológicas de cada aluno necessários para tornar-se uma pessoa madura e crítica, tais como a capacidade de comunicação, o relacionamento inter e intrapessoal, a intuição, motivação e atenção persistente, alto grau de curiosidade, capacidade de se atentar a detalhes sem perder a visão de conjunto, a capacidade de ter uma visão holística sem desconsiderar as partes que compõem o todo, capacidade de compreender outras entidades conscientes em diferente grau de profundidade, capacidade de liderança e a inteligência emocional. Tudo isso é necessário para desenvolver um produto útil e que faça todo sentido tanto para o aluno, como para a comunidade em geral.
Pensem numa escola assim, onde a química envolve-se organicamente com a biologia, a filosofia, a matemática, Português, etc. Sua vantagem é que cada aluno é como que "desafiado", ou inclinado a determinada matéria com a qual possui afinidade e, paralelamente, nenhum projeto logra êxito sem a participação conjunta das pessoas, Logo, ninguém sentir-se-á desmotivado em dar sua contribuição ou superar seus limites. Uma estratégia muito curiosa que nosso cérebro utiliza para aprender coisas que, a princípio, não desperta interesse, é aproximar este conteúdo desinteressante a algo que realmente o interessa. desta forma desenvolvemos uma "plasticidade" que favorece, e muito, a criatividade, a inventividade, as inovações, que podem ser traduzidas, mais adiante, na cura de uma doença grave, uma nova metodologia ou numa nova maneira de enxergar o mundo. Numa Pedagogia orientada a Projetos não haveria escusas indesculpáveis de que um aluno não poderia se adaptar a este estilo de ensino, a não ser que o processo de estimulação por parte do professor seja gravemente deficiente. Quando não transformamos o conhecimento em um produto útil, tudo se perde e nada se cria.
Sensibilidade
Recentemente conheci uma realidade nova que me causou profundas e positivas impressões. Tive a oportunidade de visitar uma clínica de tratamento dos AA (Alcoólicos Anônimos) e dependentes químicos, e pude perceber a seriedade do trabalho dos profissionais, cujo objetivo comum é simplesmente resgatar a dignidade destes irmãos através da busca da verdade, do autoconhecimento, do resgate consciente da própria dignidade.
Em momento algum vi nesse lugar algo que conotasse um tratamento de "auto ajuda", superficial, romântico, ingênuo, "literário". Pelo contrário, percebi ali uma rigorosidade ética impressionante, uma disciplina humanizadora, uma firmeza moral admirável, um laivo perene de esperança (por vezes, tímidas lágrimas denunciavam isso, mas preferimos chamá-las de "brilho no olhar"), uma contagiante serenidade do ambiente, do tempo e do espaço, do momento, das conversas, ainda que, de fato, percebesse também a angústia dos familiares, o drama da vida quotidiana reverberada nos gestos e na fala fragmentada de cada um, nas vozes sôfregas e até mesmo num tímido silêncio e na falsa agressividade dos gestos.
Aqui apresento-me as coisas como narrador onisciente. Vi os detalhes, mas não denuncio as pessoas. Deixo-as lá, autênticas neste momento cristalizador, e desejo contribuir nisto precisamente com meu silêncio. Considero cada dignidade anônima, e isto já denuncia o imensurável valor que cada uma contém. Por isso devem ser preservadas, assim como o tesouro "escondido" de que nos fala o Evangelho. E é justamente na Boa Nova que se fundamentam todos os valores deste espaço de esperança e humanizador.
Ao defender com sobriedade a busca de si mesmo, recorrendo tão somente à verdade psicológica e moral de cada indivíduo, vejo neste gesto, aludindo à Tradição da Igreja, a atitude de Verônica, que sensibilizada pela paixão de nosso Senhor no caminho da cruz, ofereceu-lhe um pano para lhe enxugar a face ensanguentada, acalentando-o em seu sofrimento. Da mesma forma que, como sabido, no pano gravou-se a face de Cristo, em gratidão por tão caridoso gesto, assim também todo aquele que não mede esforços para ajudar uma dignidade flagelada pelo vicio, mostra com autenticidade e longe de toda dúvida a marca mais proeminente do Cristão: o amor.
Recordo neste momento das palavras do Papa Emérito Bento XVI: "Caritas in Veritate". Só existe amor na verdade, e verdade no amor. A verdade aparece quando elucida a dignidade insofismável do dependente. Percebi um grande paradoxo: dizem que a verdade dói, mas de fato é a verdade que nos dá a paz! É a verdade que nos dá exata dimensão de nós mesmos, quem somos, por que somos e de Quem somos. A verdade devolve a posse de si mesmo a quem de direito. Mas digladia com ela certas atitudes infantis (que parecem adultecidas, mas permanecem essencialmente infantis), pelas quais o paciente se justifica, autoflagela, expressa sofisticada "birra", manifestando com tudo isso um medo, uma angústia de um espantalho criado por ele mesmo.
A verdade não tem medo de espantalhos. É o espantalho, por assim dizer, o último recurso, medonho, covarde, contra a verdade.
A caridade se manifesta precisamente quando reconhecemos a dignidade de cada ser humano. E aqui recordo-me das belas palavras de São Leão Magno: "Oh cristão, reconheça a sua dignidade!". Aqui poderíamos dizer: cristão, reconheça a identidade de seu irmão, pois é imagem e semelhança de Deus! Percebi que neste espaço o "segredo" encontra-se nas entrelinhas que o amor e a caridade traçaram no caminho de cada paciente que ruma ao conhecimento de si mesmo, na sua inteireza. Isto me impressionou. O amor devolve sorrisos sinceros, esperanças sólidas, alimenta a alma com o justo e bom alimento, desenvolve a temperança, o ordenado uso das coisas, o justo raciocínio sobre elas, a correta percepção de mundo com seus utilitários, harmoniza o homem consigo mesmo, com a natureza e a sociedade, com o próprio Deus. A espiritualidade é essencial, tudo é necessário, tudo tem sua importância medida, traçada, calculada. Exceto o amor, pois sua medida é amar sem medida (Santo Agostinho).
Extrapolo aqui os limites de uma simples reflexão. Ela toma agora ares de convite, de um convite altamente sugestivo, persuasivo, mobilizador. Como não perfeiçoa a si mesmo aquele que ajuda o homem a devolver-se e reconhecer-se digno de viver? Como não viverá bem aquele que vive para o próximo, na caridade? Qual ideologia será capaz de eclipsar o brilho desta verdade tão eloquente? Certamente, melhor seria praticar o amor do que saber defini-lo teoricamente. Para mim, a melhor definição de amor é ostensiva: está nos gestos, e que esteja sempre neles, para que nos arraste bons exemplos e pessoas de boa vontade.
PERCEPÇÕES AVULSAS
Existem professores e professores. Nesta diferenciação vou atentar meu texto e indicar toda sua conotação. Há quem lecione por prazer, há quem por dever leciona. Há quem tem prazer no ensino, mas leciona mal. E os que ensinam mal sem prazer algum? Há o que faz de si grande amigo, e outros que fazem os demais, inimigos. Alguns incentivadores, outros, demolidores de sonhos. Uns possuem trato com criança, de outros não se diz o mesmo: num só vacilo o aluno dança. Mesmo sendo adultos, tratam-nos como criança.
Detenho me na infância. Vejo-me nela. Dela colho inocência, de muitos só vejo arrogância. Dela, sinceridade. Deles, farisaísmo com a verdade: tudo deve ter forma e procedimento. Mas enquanto criança, recolho como brinquedo meu entendimento, devolvo numa caixa qualquer, afoitamente tropeço numa criatividade bem ali, esquecida no corredor - sendo eu tão distraído no ensino, quase o destruo...sou aluno, ora pois! Meu medo agora é de brincar com a verdade. Agora já está bem acomodada numa caixa qualquer, pois tenho hora, tempo e lugar para instrumentalizá-la, enquanto sou temerosamente assistido numa brincadeira cuja regra eu não criei.
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