Pesquisar este blog

terça-feira, 7 de outubro de 2014

As avaliações acadêmicas parecem criar um efeito suspensivo no raciocínio do aluno. Ele sempre vai saber antes e melhor depois, nunca durante a aplicação de exames. A prova tem o poder de sugar o raciocínio do aluno, abduzido e subjugado pela elucubração do professor. Todo instrumento de avaliação é expressivamente  pautado pela ego seleção.

domingo, 5 de outubro de 2014

Se eu falasse na cara, faltaria face ou faltaria voz.
Se eu falasse às claras, faltaria sol ou faltaria luz.
Se a consciência cala, faltaria eu ou faltaria nós
Se minha boca fala, calaria eu ou falaria a nós...
Se sozinho eu disse, mesmo frente a tudo ficaria a sós
e contigo mudo, sem nada dizer ou argumentar
e se controverso em meu verso certo for transverberar
a fala...
ficaria mudo, calaria tudo só pra te escutar
A Zona de Desenvolvimento Próximal é pra aluno adestrado. O aluno mais livre vive numa Zona de Desenvolvimento Anos-Luz de Distância.
Aprender é como entrar numa casa: ou entramos pela porta da frente, ou entramos pela porta dos fundos. Pela porta da frente vamos diretamente ao cômodo principal: a sala. Pela porta dos fundos, percorremos muitos cômodos até chegar à mesma sala. Esta é lugar de encontro. Por isso estudamos numa sala de aula, pois nela encontramos conhecimento. Há quem se sinta mais à vontade em entrar pela frente, para depois compreender como os demais cômodos se ordenam àquela, e outros quese sentem mais à vontade em entrar pelos fundos, percebendo a relação que os cômodos tem entre si, até que por eles cheguem ao cômodo principal. Assim são os alunos: uns querem logo aprender os conceitos para verificá-los com muitas demonstrações (os cômodos), outros que preferem, inicialmente, muitas demonstrações até chegarem nos conceitos. Qual aluno é o mais esperto: o que entra pela porta da frente ou o que entra pela porta dos fundos? Nenhum dos dois. Esperto é o professor que deixa as duas abertas.
O Movimento da Escola Nova começou da Europa para a América; esparso rumo à sistematização. Das bases filosóficas para uma principiologia. Da diáspora para o êxodo. Do Egito à Terra Prometida. A Escola Nova ainda atravessa o deserto. A Escola Nova ainda promete...

EXCLUDÊNCIO


Era uma vez um aluno chamado Excludêncio. Matriculado, um ser de rara frequência escolar, inventou ser hostilizado pelos companheiros. Das moças bonitas tiram-se-lhe os dentes, por inveja. Ao Excludêncio, mostram-se-lhe os dentes, por inveja. Excludêncio era inteligente. Gostava de entrar na sala de aula e debater ideias, mas se entediava ao extremo com pseduperguntas acadêmicas do tipo "o que é o que é", ao invés de responder "por que é porque é?!". Entopem o pobre coitado com textos simples que narram e explicam o óbvio, mesmo sabendo que o essencial é invisível aos olhos. Inclusive à leitura do óbvio. 

Excludêncio é acusado de levar seu curso no "lepo lepo", na brincadeira. Quando falta, perde o respeito dos demais. Mas quando presente, não se torna merecedor dele. Quando calado é um bom aluno. Quando questiona, provoca primitivos sentimentos a homens e mulheres presumidamente polidos e socializados, desde aqueles cultos aos que se presumem ser. Excludêncio ouviu dizer de uma mãe que ele não seria bom professor de seu filho, por lhe faltar "empenho". Mas resolver todos os exercícios para esta mãe, ah, isso sim ele pode, e com que confiança! Pobre Excludêncio.

De tanto ouvir o vocábulo "letramento" (confesso que antes não estava nem aí para ele), resolvi buscar apreender seu aspecto imaterial, ou seja, a semântica de seu termo (se bem que acabei descobrindo outra coisa). Ou, no dizer de Copi, partindo de sua "intensão" (sim, com 's') à sua extensão. Mas para compreender adequadamente o letramento, é necessário entender de alfabetização, utilizando o mesmo critério. E também não estava nem aí para ela. Curiosamente, escrevendo estas coisas, acabo de perceber que letramento e alfabetização formam um belo casal: ele e ela. Não é à toa que os dois, no universo da linguagem, formam uma só carne. O letramento foi tirado da costela da alfabetização, ao passo que a mulher foi derivada do homem. Tanto um quanto outro, tomados isoladamente, são estéreis, mas em conjunto possuem alto poder de fertilidade e perpetuação de seu gênero. Assim, não faz sentido alfabetizar alfabetizando e letrar letrando, pois, já nos alertava Heráclito de Éfeso, o ser surge da conjunção dos opostos (e não do antitético).
Dizem que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Magda Soares* meteu. Mas não no sentido de inflamar ainda mais a confusão conceitual de ambos, mas para purificar-lhes na mentalidade alheia a essência de cada um. O casal, outrora alvo de entulhamento semântico, voltou aos poucos a fazer as pazes com o turbulento mundo acadêmico. Promoveu sua equilibração.
Continuando minhas digressões, percebi que ainda ficaria incompleta a compreensão de alfabetizar sem atentar àquilo que ele indica: a palavra, tanto em seu sentido material (oral ou gráfico), quanto em seu sentido imaterial, semântico. Intuitivamente cheguei a Emília Ferreiro. E percebi algo "esquisito", pois foi no início da década de 1980 que a psicogênese da língua escrita bombou. Foi em meados da década de 1980 que emergiu também a palavra letramento. Foi também nesta década que o mengão foi campeão mundial.
Aí eu me pergunto: parece que houve alguma variável nas entrelinhas, latente, que permitiu expressiva correlação entre a psicogênese da língua escrita e o nascituro letramento. Suponho que a culpa foi da palavra. No princípio era o verbo. Eu prefiro dizer que no princípio era o substantivo, que é o rei da classe de palavras: tudo deriva dele. O substantivo indica o ser; parafraseando Anaxágoras, o ser é a medida de todas as coisas. Minha intuição diz que o que a Emília foi para o sítio da alfabetização, com "sua" psicogênese, Paulão foi para a roça dos canavieiros, com "sua" palavra geradora, o que eu chamo de sociogênese. Por isso desconfio de que um e outro nasceram de mãos dadas. É fácil perceber, pois, o movimento pendular ora voltado para o letramento, ora para a alfabetização, porque o equilíbrio é sempre produto da tensão dos opostos, nunca de termos contraditórios. Ah, nada neste mundo se perde ou cria, tudo se transforma em "novidade": a palavra contém em si toda uma lógica social (servindo também como pedra angular) e psicológica.







Uma estrela no céu, quando morre, gera outros tantos astros brilhantes, de modo que até o que não possui luz própria, antes faz-se vivo a espargir seu brilho, coroando o vigor de sua gravidade numa elíptica e constante audiência. Entre os homens, onde há dois focos de luz, ambos se ofuscam, e quando um morre, é porque foi morto por outro. Lembro-me, divagando sobre o cosmo, que um buraco-negro no espaço, de tão imensa gravidade, é capaz até mesmo de sugar a luz, impedindo sua reflexão. Mas curiosamente, praticamente todas as grandes galáxias possuem em seu núcleo um buraco negro. Como algo que nem mesmo poupa a luz é capaz de receber luminosa vênia de toda uma galáxia? Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Assim são os homens: gravitam mais poderosamente diante dos poderosos, estes alimentando-se de tudo aquilo que não é dele; aqueles, literalmente servindo-se de vaidoso alimento... Nem tudo que reluz é ouro. 
Mas este hediondo monstro cosmológico, quando já farto de se alimentar da matéria alheia, na sua gula insana e empedernida, provoca aquilo que é considerado um espetáculo sem par no macrocosmos: literalmente cospe luz! A isso chamamos de quasar, algo tão extraordinário que supera e muito o brilho de uma galáxia inteira. Entendi, por entre metáforas, que o homem cheio de si é sempre vazio. Que o homem vazio de si sacrifica os outros. Que o homem, farto dos outros, morre a si mesmo. E nesta condição, jamais refulgirá em sua própria luz.

Mais dúvidas pedagógicas...


1. Se um deficiente intelectual congênito, depois de muitos anos de improficiência no entendimento das coisas, for "curado", despertando a um estado normal de inteligência, será que ele aprenderia melhor pelo fato de possuir maior capacidade, ou terá dificuldade de aprender novas coisas, pelo fato de sua compreensão anterior ter restringido bastante suas referências de aprendizagem (assimilação e acomodação)? Sua zona de desenvolvimento real será maior que a sua zona de desenvolvimento proximal?
2. A lei assegura a todos os alunos o acesso e universalização do ensino, ao passo que exige sua identificação civil (nacionalidade e naturalidade) para ser matriculado. E se na escola houver um aluno apátrida, ele seria educado ou ensinado, alfabetizado ou letrado como "aluno", cidadão ou pessoa? E se esse aluno cometer ato infracional, como será punido, sem o devido registro civil?
3. Se um aluno perder todos os sentidos, desde que não perca a consciência, presumo que ele ainda possa aprender. Mas como se daria este aprendizado, se tudo o que "alimenta" a mente vem necessariamente pela representação, ou seja, de maneira mediata? Mas como não aprenderia, se ainda mantém a lucidez?

DÚVIDAS PEDAGÓGICAS


Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. (Art. 3° da Lei de Introdução ao Código Civil).

Um homem pode ser letrado, cujo aprendizado ocorre geralmente em contextos informais, mas isento duma "competência alfabética". Porém, a alfabetização por si só não implica um grau satisfatório e complementar de letramento. Sabe-se que toda regra possui exceção. Neste sentido, como formular uma defesa jurídica para cada cidadão, quer seja letrado, quer seja alfabetizado? Em que nível o letrado compreende a lei? Qual nível de compreensão normativa possui o alfabetizado? E se alfabetização e letramento fundirem-se numa só pessoa, seu conhecimento legal seria apriorístico, real, ou potencial, prospectivo? Pois o primeiro parece aprender muito mais pelo exemplo, de maneira intuitiva e assistemática, do que pela escolarização. Ora, um exemplo pode ser tanto bom, levando ao bom comportamento, quanto mal, levando ao conflito. O segundo compreende as palavras mas não necessariamente a principiologia das normas jurídicas. Mas a todos é imposto o cumprimento da lei. Então como uma pessoa alegaria conhecê-la, quando há diversos fatores que favorecem seu desconhecimento?
Os deuses não erram: sentenciam. 
Os mortais, estes sim erram, e silenciam.
Os deuses não falam, pronunciam.
Mas os súditos, estes sim exalam o que eles fiam.
Os deuses passarão neste vir a ser... dialética.
Os mortais, que não passam, passarão...enteléquia.
Os deuses, neste vir a ser, não são.

Os súditos, pelo vir a ser, serão.


__________________________________________________

Eu tenho na mão uma letra
um vê apenas a forma
outro, o conteúdo
mesmo assim não vê tudo.
mesmo assim não informa.


Eu tenho na forma poética
um vê apenas palavra
outro, apenas estética
obstante calava
sua veia noetica.

Eu tenho na voz um poema
um vê apenas a rima
outro apenas grafema
oculta na ideia prima
e oculto no entimema.



__________________________________



Entrevi e li
nas entrelinhas
as coisas que são só minhas
e na lembrança guardei.
Até diria, mas não sei falar
e lê-las em alta voz
para mim e para nós.
Prefiro, pois, estar a sós.
De fato não sei se sou deus
ou se rei
Mas eu bem sei
sou vaga distância
que vive o instante
a ser lido.
Mas eu duvido.
Quando ouço falar
desses olhos que leem
o tempo
paro por um momento
e sento.
Não quero vagar
pois cansado estou
prefiro andar parado
e levado para onde vou.


_________________________________


Ao aluno atrasado, olhos fixos.
do adiantado, desviam os olhos.
ao atrasado, oferecem a mão.
ao adiantado, a contradição.
Ao adiantado, uma bela rasteira
Ao atrasado, roda de capoeira.
ao adiantado, rabo de arraia e pisão.
O atrasado é concreto.
o adiantado, ser abstrato.
ao atrasado, afeto, carinho e tato.
o adiantado, estupefato!
ao atrasado, amor e carinho
tanto aqui dentro e la fora.
o adiantado é sozinho
mesmo dentro da escola.

__________________________________

Vinicius Simas do Nascimento

sábado, 4 de outubro de 2014

Desabafo

Minha forma de raciocinar, aprender, o tempo que gasto para ler é radicalmente diferente dos demais, pelo menos é o que percebo. Quando me preparo para uma prova ou trabalho, geralmente leio tudo o que for possível antes, e apenas nas vésperas escrevo e/ou apresento mentalmente o roteiro do discurso. Para mim isto é extremamente vantajoso, pois gosto de pensar em muitas coisas e fazer muitas associações. Isto me dá segurança, sensação de domínio sobre a matéria. Mas em grupo isso é muito ruim: primeiro porque não combina em nada com prazos. Segundo, porque não combina nada com o "raciocínio mais prático", ou para ser sincero, o raciocínio parafraseado, mecanizado, de muitas informações pesquisadas. De repente alguém entenda este comportamento como arrogante. Eu entendo como autoconhecimento, introversão, que é diferente de timidez ou falsa modéstia. Santa Tereza Dávila e Santa Faustina diziam que a humildade é a verdade. Se sou verdadeiro comigo mesmo, não tem como ser arrogante, ainda que pensem tal coisa de mim. Perceba que isto claramente leva a divergências de ideias e ao conflito. E por quê? Porque eu não penso como os demais. Intuitivamente percebo que me dou melhor com as pessoas mais maduras e inteligentes. Me sinto bem ao lado de pessoas mais cultas, pois geralmente a estratégia de aprendizagem delas assemelha-se às que eu apresento (não é questão de menosprezo aos demais).

 Na maioria das vezes preciso de constante estímulo para "avançar" num conteúdo didático. Na verdade, quando me interesso por algo, eu só saio dele quando tiver "esgotado" o assunto. Por isso não me dou bem com essa linearidade curricular. Mas não me dou bem mesmo! Esta foi a causa suficiente por ter abandonado quatro faculdades (se bem que em uma as razões foram outras e razoavelmente fáceis de serem corrigidas). Veja que ironia: já ouvi muitas vezes que essa forma de aprender, debatendo, argumentativa, é muito válida numa pós-graduação. Ótimo, sendo eu essencialmente desta forma, não poderia "pular" para uma pós sem antes passar pela massacrante graduação. Sem graduação, sem pós, logo, sem chance de ser o que sou em lugar nenhum. Estaria sempre numa conditio sine qua non, num vir a ser que não virá nunca e pelo qual nunca serei. Os conteúdos acadêmicos muitíssimas vezes são desinteressantes, não pela qualidade deles, mas porque eu gosto de debater, aprofundar, questionar, e isto leva as pessoas a pensarem que estou adotando uma linguagem agressiva e parcial, como se fosse um argumentum ad hominem. Ou eu não estou adequado ao conteúdo, ou eles não estão adequados a mim. Muitas vezes não encontro quem me compreenda, quer meu raciocínio, quer minha crítica, ironia, interesse. Alguns gostam, a maioria detesta, e eu fico para trás, frustrado. Repito: não me dou bem com prazos. Se eu pudesse, viveria pesquisando, escrevendo e postando seus resultados. Mas não posso, e isso me irrita enormemente.

Aprendi que a oralidade está para a prática social da fala, e o letramento está para a prática social da escrita. Também aprendi que o homem se desenvolve em sociedade, é um ser gregário. Mas a sociedade não é igual, e no dizer de Ives De la Taille, a tirania do grupo é muitas vezes pior que a tirania de um homem só. Ora, como posso ser "letrado e oralizado" se o boicote social tem uma linha de corte pautada pela média, pela homogenia? O respeito à diferença parece ter a gravidade de um cometa: quase nula. Mas a gravidade da média parece ser a de Saturno: esmagadora. Quantas vezes deixei de dizer algo pelo simples motivo de evitar "polêmicas". O problema é que isso me pesa, me corrói por dentro, me faz degringolar ora para um silêncio absoluto, ora para uma maneira mais expansiva de falar, diálogos em paralelo para me energizar em detrimento do tédio que sinto, ora procuro ao máximo prestar atenção no conteúdo para ver se ele me interessa. Mas a verdade é que todas as vezes que me violento, quando esta violência simbólica me atinge, perco a harmonia comigo mesmo. Converto-me num homem com um mundo estilhaçado. Me converto num prosélito do currículo oculto, da tirania da média, quando a moda estatística também deveria ser levada em conta neste continuum.Deveriam ser considerados os desvio-padrões, os percentis. Mas a média acha que é dona da democracia, por presumir ser a maioria. A média julga estar no topo do sino, na crista da onda.

 Tenho algumas ideias escritas no âmbito acadêmico, pelo menos uns seis projetos de pesquisa a serem desenvolvidos. Escrevi algo sobre métodos de ensino, sobre método de compreender a História, estou escrevendo um trabalho que permite identificar argumentos e valeria até como prova pericial para detectar plágio (se eu tiver saco termino ele). Mas o que ainda me falta é, digamos, aprender melhor as ferramentas de pesquisa. Preciso aprender mais a fundo as nuances das pesquisas, extensões e limites. Ah sim, existe a Iniciação Científica (..). Preciso de boas notas. Mas nota é um padrão arbitrário. Não tem correlação perfeita com conhecimento, interesse e criatividade, por exemplo. Não se correlaciona perfeitamente com outros elementos da aquisição do conhecimento, por isso julgo ser um instrumento válido, mas com sérias restrições, e não poderia ser adotada como critério majoritário para se estimular alguém a pesquisar cientificamente algo.

 Existe uma ideia populista no ambiente acadêmico (que para mim não tem muita lógica) que desenvolver trabalhos em grupo ajuda na sociabilidade. Digo que é um argumento fraco porque o aluno não se socializa apenas na escola, de modo que se ele se der mal socialmente nela, necessariamente refletiria sua inadequação em vários contextos sociais. Esta é uma generalização apressada. Aliás, se há conflito, é necessário saber elencar as inúmeras possibilidades que as eliciam, o porquê delas. Num esporte coletivo, uso tanto minha inteligência cinestésica quanto a intra e interpessoal. Nunca tive problemas de relacionamento no futebol, na capoeira pelo simples fato de ser diferente e incompreendido no contexto escolar. Me dou muito bem com muitos professores e muitos alunos, e nunca desenvolvi nenhuma interação em grupo com eles. - Em decorrência de todas estas premissas que apresentei, inevitavelmente já entrei em conflito com algumas pessoas com as quais tive de trabalhar em grupo. Isto me desmotiva de tal maneira que decidi muitas vezes não mais fazer parte dele (e talvez de grupo nenhum). É uma frustração atrás da outra. Para ser bem sincero, não gosto desta arbitrariedade de escolha, a não ser que seja algo de extrema relevância. É verdade que no ambiente laboral não escolhemos as pessoas com quem vamos trabalhar. Mas escolhemos os trabalhos com os quais nos identificamos. Neste aspecto, é bem provável que as pessoas se identifiquem pelo modus operandis, e não simplesmente porque estão lá, executando um serviço. A visão que tenho desta aleatoriedade na escola é justamente o contrário: muitos estão lá porque foram colocados, dispostos nesta perspectiva "baumanniana", onde vale mais uma coisa que está bem formatada no conjunto, e que nada vale fora dele. Assim, um sapato nunca poderia ser colocado numa escada, mas num "lugar adequado". Este "algo em comum" nos grupos parece uma selva, o homem lobo do homem. Quem tem aptidão natural para liderar acaba não liderando, quem é imatura emocionalmente quer vencer no grito, e o grito acaba vencendo, não por medo, mas por conveniência. A Homeostase de tal gueto despendiaria um grau elevado de energia mental, então, por parcimônia, deixa-se tudo "em seu devido lugar". Isto é trabalho em grupo? Vejo isso o protótipo de uma sociedade primitiva. Rousseau já dizia que a sociedade corrompe o homem, enquanto que a Igreja diz que o pecado individual é que corrompe a sociedade. O grupo corrompido é tirano. O indivíduo corrompido lidera o grupo primitivo. No grupo não há regras claras de comportamento. Não há um consenso baseado na ética natural das coisas, mas numa espécie de individualismo coletivo. Lembra perfeitamente aquelas crianças pré-operatórias, egocêntricas. Quem vê de fora acha que vê sinergia, quem vê de dentro só vê a si mesmo. É isto trabalho em grupo?!


 Vinicius Simas

ARROGÂNCIO.

Conheci um aluno chamado Arrogâncio. Dele dizem tantas e tão vivas polêmicas, que para retratá-lo, melhor seria por tinta e pincel do que caneta e papel. Pois bem... Era uma vez Arrogâncio. Era e continua sendo. Não deixará de ser. Na escola, um desviado. Não, ele não é revoltado ou sociopata! Ele é a perfeita materialização do desvio-padrão, da via de regra na contramão. Perguntador, curioso, holístico, criativo, perspicaz, se bem que um tanto dispersivo, se preocupava mais com a verdade das coisas do que com a falsa ilusão do conhecimento. Para ele, muitos de seus professores eram ilusionistas. Exatamente, encantavam alunos com teatrais discursos, enquanto Arrogâncio nunca foi chegado a estas tolices.

Curiosamente, Arrogâncio sempre encontra professores doutores que gostam de escrever "sou doutor" no quadro negro. Isto acontece porque está a ver um monólogo, assitir um stand up comedy, onde o show é do doutor, e sua luz deve brilhar, enquanto ele assiste impaciente. Arrogâncio sai destas apresentações sem aprender nada. Ele vê claramente que o doutor quando ameaça ou ameaçado, usa seu título, quando recompensa ou recompensado, usa seu título, quando grita ou se acalma, usa seu título, de corpo e de alma, usa seu título. Mas sabe que não há nada de essencialmente professoral nestas teatrais apresentações. Os outros aplaudem admirados, enquanto Arrogâncio não pode aplaudir a ausência de um doutor de verdade. 


 VINICIUS SIMAS