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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sensibilidade

Recentemente conheci uma realidade nova que me causou profundas e positivas impressões. Tive a oportunidade de visitar uma clínica de tratamento dos AA (Alcoólicos Anônimos) e dependentes químicos, e pude perceber a seriedade do trabalho dos profissionais, cujo objetivo comum é simplesmente resgatar a dignidade destes irmãos através da busca da verdade, do autoconhecimento, do resgate consciente da própria dignidade. Em momento algum vi nesse lugar algo que conotasse um tratamento de "auto ajuda", superficial, romântico, ingênuo, "literário". Pelo contrário, percebi ali uma rigorosidade ética impressionante, uma disciplina humanizadora, uma firmeza moral admirável, um laivo perene de esperança (por vezes, tímidas lágrimas denunciavam isso, mas preferimos chamá-las de "brilho no olhar"), uma contagiante serenidade do ambiente, do tempo e do espaço, do momento, das conversas, ainda que, de fato, percebesse também a angústia dos familiares, o drama da vida quotidiana reverberada nos gestos e na fala fragmentada de cada um, nas vozes sôfregas e até mesmo num tímido silêncio e na falsa agressividade dos gestos. Aqui apresento-me as coisas como narrador onisciente. Vi os detalhes, mas não denuncio as pessoas. Deixo-as lá, autênticas neste momento cristalizador, e desejo contribuir nisto precisamente com meu silêncio. Considero cada dignidade anônima, e isto já denuncia o imensurável valor que cada uma contém. Por isso devem ser preservadas, assim como o tesouro "escondido" de que nos fala o Evangelho. E é justamente na Boa Nova que se fundamentam todos os valores deste espaço de esperança e humanizador. 

Ao defender com sobriedade a busca de si mesmo, recorrendo tão somente à verdade psicológica e moral de cada indivíduo, vejo neste gesto, aludindo à Tradição da Igreja, a atitude de Verônica, que sensibilizada pela paixão de nosso Senhor no caminho da cruz, ofereceu-lhe um pano para lhe enxugar a face ensanguentada, acalentando-o em seu sofrimento. Da mesma forma que, como sabido, no pano gravou-se a face de Cristo, em gratidão por tão caridoso gesto, assim também todo aquele que não mede esforços para ajudar uma dignidade flagelada pelo vicio, mostra com autenticidade e longe de toda dúvida a marca mais proeminente do Cristão: o amor. Recordo neste momento das palavras do Papa Emérito Bento XVI: "Caritas in Veritate". Só existe amor na verdade, e verdade no amor. A verdade aparece quando elucida a dignidade insofismável do dependente. Percebi um grande paradoxo: dizem que a verdade dói, mas de fato é a verdade que nos dá a paz! É a verdade que nos dá exata dimensão de nós mesmos, quem somos, por que somos e de Quem somos. A verdade devolve a posse de si mesmo a quem de direito. Mas digladia com ela certas atitudes infantis (que parecem adultecidas, mas permanecem essencialmente infantis), pelas quais o paciente se justifica, autoflagela, expressa sofisticada "birra", manifestando com tudo isso um medo, uma angústia de um espantalho criado por ele mesmo. 

A verdade não tem medo de espantalhos. É o espantalho, por assim dizer, o último recurso, medonho, covarde, contra a verdade. A caridade se manifesta precisamente quando reconhecemos a dignidade de cada ser humano. E aqui recordo-me das belas palavras de São Leão Magno: "Oh cristão, reconheça a sua dignidade!". Aqui poderíamos dizer: cristão, reconheça a identidade de seu irmão, pois é imagem e semelhança de Deus! Percebi que neste espaço o "segredo" encontra-se nas entrelinhas que o amor e a caridade traçaram no caminho de cada paciente que ruma ao conhecimento de si mesmo, na sua inteireza. Isto me impressionou. O amor devolve sorrisos sinceros, esperanças sólidas, alimenta a alma com o justo e bom alimento, desenvolve a temperança, o ordenado uso das coisas, o justo raciocínio sobre elas, a correta percepção de mundo com seus utilitários, harmoniza o homem consigo mesmo, com a natureza e a sociedade, com o próprio Deus. A espiritualidade é essencial, tudo é necessário, tudo tem sua importância medida, traçada, calculada. Exceto o amor, pois sua medida é amar sem medida (Santo Agostinho). Extrapolo aqui os limites de uma simples reflexão. Ela toma agora ares de convite, de um convite altamente sugestivo, persuasivo, mobilizador. Como não perfeiçoa a si mesmo aquele que ajuda o homem a devolver-se e reconhecer-se digno de viver? Como não viverá bem aquele que vive para o próximo, na caridade? Qual ideologia será capaz de eclipsar o brilho desta verdade tão eloquente? Certamente, melhor seria praticar o amor do que saber defini-lo teoricamente. Para mim, a melhor definição de amor é ostensiva: está nos gestos, e que esteja sempre neles, para que nos arraste bons exemplos e pessoas de boa vontade.

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