Minha forma de raciocinar, aprender, o tempo que gasto para ler é radicalmente diferente dos demais, pelo menos é o que percebo. Quando me preparo para uma prova ou trabalho, geralmente leio tudo o que for possível antes, e apenas nas vésperas escrevo e/ou apresento mentalmente o roteiro do discurso. Para mim isto é extremamente vantajoso, pois gosto de pensar em muitas coisas e fazer muitas associações. Isto me dá segurança, sensação de domínio sobre a matéria. Mas em grupo isso é muito ruim: primeiro porque não combina em nada com prazos. Segundo, porque não combina nada com o "raciocínio mais prático", ou para ser sincero, o raciocínio parafraseado, mecanizado, de muitas informações pesquisadas. De repente alguém entenda este comportamento como arrogante. Eu entendo como autoconhecimento, introversão, que é diferente de timidez ou falsa modéstia. Santa Tereza Dávila e Santa Faustina diziam que a humildade é a verdade. Se sou verdadeiro comigo mesmo, não tem como ser arrogante, ainda que pensem tal coisa de mim.
Perceba que isto claramente leva a divergências de ideias e ao conflito. E por quê? Porque eu não penso como os demais. Intuitivamente percebo que me dou melhor com as pessoas mais maduras e inteligentes. Me sinto bem ao lado de pessoas mais cultas, pois geralmente a estratégia de aprendizagem delas assemelha-se às que eu apresento (não é questão de menosprezo aos demais).
Na maioria das vezes preciso de constante estímulo para "avançar" num conteúdo didático. Na verdade, quando me interesso por algo, eu só saio dele quando tiver "esgotado" o assunto. Por isso não me dou bem com essa linearidade curricular. Mas não me dou bem mesmo! Esta foi a causa suficiente por ter abandonado quatro faculdades (se bem que em uma as razões foram outras e razoavelmente fáceis de serem corrigidas). Veja que ironia: já ouvi muitas vezes que essa forma de aprender, debatendo, argumentativa, é muito válida numa pós-graduação. Ótimo, sendo eu essencialmente desta forma, não poderia "pular" para uma pós sem antes passar pela massacrante graduação. Sem graduação, sem pós, logo, sem chance de ser o que sou em lugar nenhum. Estaria sempre numa conditio sine qua non, num vir a ser que não virá nunca e pelo qual nunca serei.
Os conteúdos acadêmicos muitíssimas vezes são desinteressantes, não pela qualidade deles, mas porque eu gosto de debater, aprofundar, questionar, e isto leva as pessoas a pensarem que estou adotando uma linguagem agressiva e parcial, como se fosse um argumentum ad hominem. Ou eu não estou adequado ao conteúdo, ou eles não estão adequados a mim. Muitas vezes não encontro quem me compreenda, quer meu raciocínio, quer minha crítica, ironia, interesse. Alguns gostam, a maioria detesta, e eu fico para trás, frustrado. Repito: não me dou bem com prazos. Se eu pudesse, viveria pesquisando, escrevendo e postando seus resultados. Mas não posso, e isso me irrita enormemente.
Aprendi que a oralidade está para a prática social da fala, e o letramento está para a prática social da escrita. Também aprendi que o homem se desenvolve em sociedade, é um ser gregário. Mas a sociedade não é igual, e no dizer de Ives De la Taille, a tirania do grupo é muitas vezes pior que a tirania de um homem só. Ora, como posso ser "letrado e oralizado" se o boicote social tem uma linha de corte pautada pela média, pela homogenia? O respeito à diferença parece ter a gravidade de um cometa: quase nula. Mas a gravidade da média parece ser a de Saturno: esmagadora. Quantas vezes deixei de dizer algo pelo simples motivo de evitar "polêmicas". O problema é que isso me pesa, me corrói por dentro, me faz degringolar ora para um silêncio absoluto, ora para uma maneira mais expansiva de falar, diálogos em paralelo para me energizar em detrimento do tédio que sinto, ora procuro ao máximo prestar atenção no conteúdo para ver se ele me interessa. Mas a verdade é que todas as vezes que me violento, quando esta violência simbólica me atinge, perco a harmonia comigo mesmo. Converto-me num homem com um mundo estilhaçado. Me converto num prosélito do currículo oculto, da tirania da média, quando a moda estatística também deveria ser levada em conta neste continuum.Deveriam ser considerados os desvio-padrões, os percentis. Mas a média acha que é dona da democracia, por presumir ser a maioria. A média julga estar no topo do sino, na crista da onda.
Tenho algumas ideias escritas no âmbito acadêmico, pelo menos uns seis projetos de pesquisa a serem desenvolvidos. Escrevi algo sobre métodos de ensino, sobre método de compreender a História, estou escrevendo um trabalho que permite identificar argumentos e valeria até como prova pericial para detectar plágio (se eu tiver saco termino ele). Mas o que ainda me falta é, digamos, aprender melhor as ferramentas de pesquisa. Preciso aprender mais a fundo as nuances das pesquisas, extensões e limites. Ah sim, existe a Iniciação Científica (..). Preciso de boas notas. Mas nota é um padrão arbitrário. Não tem correlação perfeita com conhecimento, interesse e criatividade, por exemplo. Não se correlaciona perfeitamente com outros elementos da aquisição do conhecimento, por isso julgo ser um instrumento válido, mas com sérias restrições, e não poderia ser adotada como critério majoritário para se estimular alguém a pesquisar cientificamente algo.
Existe uma ideia populista no ambiente acadêmico (que para mim não tem muita lógica) que desenvolver trabalhos em grupo ajuda na sociabilidade. Digo que é um argumento fraco porque o aluno não se socializa apenas na escola, de modo que se ele se der mal socialmente nela, necessariamente refletiria sua inadequação em vários contextos sociais. Esta é uma generalização apressada. Aliás, se há conflito, é necessário saber elencar as inúmeras possibilidades que as eliciam, o porquê delas. Num esporte coletivo, uso tanto minha inteligência cinestésica quanto a intra e interpessoal. Nunca tive problemas de relacionamento no futebol, na capoeira pelo simples fato de ser diferente e incompreendido no contexto escolar. Me dou muito bem com muitos professores e muitos alunos, e nunca desenvolvi nenhuma interação em grupo com eles.
- Em decorrência de todas estas premissas que apresentei, inevitavelmente já entrei em conflito com algumas pessoas com as quais tive de trabalhar em grupo. Isto me desmotiva de tal maneira que decidi muitas vezes não mais fazer parte dele (e talvez de grupo nenhum). É uma frustração atrás da outra. Para ser bem sincero, não gosto desta arbitrariedade de escolha, a não ser que seja algo de extrema relevância. É verdade que no ambiente laboral não escolhemos as pessoas com quem vamos trabalhar. Mas escolhemos os trabalhos com os quais nos identificamos. Neste aspecto, é bem provável que as pessoas se identifiquem pelo modus operandis, e não simplesmente porque estão lá, executando um serviço. A visão que tenho desta aleatoriedade na escola é justamente o contrário: muitos estão lá porque foram colocados, dispostos nesta perspectiva "baumanniana", onde vale mais uma coisa que está bem formatada no conjunto, e que nada vale fora dele. Assim, um sapato nunca poderia ser colocado numa escada, mas num "lugar adequado". Este "algo em comum" nos grupos parece uma selva, o homem lobo do homem. Quem tem aptidão natural para liderar acaba não liderando, quem é imatura emocionalmente quer vencer no grito, e o grito acaba vencendo, não por medo, mas por conveniência. A Homeostase de tal gueto despendiaria um grau elevado de energia mental, então, por parcimônia, deixa-se tudo "em seu devido lugar". Isto é trabalho em grupo? Vejo isso o protótipo de uma sociedade primitiva. Rousseau já dizia que a sociedade corrompe o homem, enquanto que a Igreja diz que o pecado individual é que corrompe a sociedade. O grupo corrompido é tirano. O indivíduo corrompido lidera o grupo primitivo. No grupo não há regras claras de comportamento. Não há um consenso baseado na ética natural das coisas, mas numa espécie de individualismo coletivo. Lembra perfeitamente aquelas crianças pré-operatórias, egocêntricas. Quem vê de fora acha que vê sinergia, quem vê de dentro só vê a si mesmo. É isto trabalho em grupo?!
Vinicius Simas
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