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terça-feira, 7 de outubro de 2014

As avaliações acadêmicas parecem criar um efeito suspensivo no raciocínio do aluno. Ele sempre vai saber antes e melhor depois, nunca durante a aplicação de exames. A prova tem o poder de sugar o raciocínio do aluno, abduzido e subjugado pela elucubração do professor. Todo instrumento de avaliação é expressivamente  pautado pela ego seleção.

domingo, 5 de outubro de 2014

Se eu falasse na cara, faltaria face ou faltaria voz.
Se eu falasse às claras, faltaria sol ou faltaria luz.
Se a consciência cala, faltaria eu ou faltaria nós
Se minha boca fala, calaria eu ou falaria a nós...
Se sozinho eu disse, mesmo frente a tudo ficaria a sós
e contigo mudo, sem nada dizer ou argumentar
e se controverso em meu verso certo for transverberar
a fala...
ficaria mudo, calaria tudo só pra te escutar
A Zona de Desenvolvimento Próximal é pra aluno adestrado. O aluno mais livre vive numa Zona de Desenvolvimento Anos-Luz de Distância.
Aprender é como entrar numa casa: ou entramos pela porta da frente, ou entramos pela porta dos fundos. Pela porta da frente vamos diretamente ao cômodo principal: a sala. Pela porta dos fundos, percorremos muitos cômodos até chegar à mesma sala. Esta é lugar de encontro. Por isso estudamos numa sala de aula, pois nela encontramos conhecimento. Há quem se sinta mais à vontade em entrar pela frente, para depois compreender como os demais cômodos se ordenam àquela, e outros quese sentem mais à vontade em entrar pelos fundos, percebendo a relação que os cômodos tem entre si, até que por eles cheguem ao cômodo principal. Assim são os alunos: uns querem logo aprender os conceitos para verificá-los com muitas demonstrações (os cômodos), outros que preferem, inicialmente, muitas demonstrações até chegarem nos conceitos. Qual aluno é o mais esperto: o que entra pela porta da frente ou o que entra pela porta dos fundos? Nenhum dos dois. Esperto é o professor que deixa as duas abertas.
O Movimento da Escola Nova começou da Europa para a América; esparso rumo à sistematização. Das bases filosóficas para uma principiologia. Da diáspora para o êxodo. Do Egito à Terra Prometida. A Escola Nova ainda atravessa o deserto. A Escola Nova ainda promete...

EXCLUDÊNCIO


Era uma vez um aluno chamado Excludêncio. Matriculado, um ser de rara frequência escolar, inventou ser hostilizado pelos companheiros. Das moças bonitas tiram-se-lhe os dentes, por inveja. Ao Excludêncio, mostram-se-lhe os dentes, por inveja. Excludêncio era inteligente. Gostava de entrar na sala de aula e debater ideias, mas se entediava ao extremo com pseduperguntas acadêmicas do tipo "o que é o que é", ao invés de responder "por que é porque é?!". Entopem o pobre coitado com textos simples que narram e explicam o óbvio, mesmo sabendo que o essencial é invisível aos olhos. Inclusive à leitura do óbvio. 

Excludêncio é acusado de levar seu curso no "lepo lepo", na brincadeira. Quando falta, perde o respeito dos demais. Mas quando presente, não se torna merecedor dele. Quando calado é um bom aluno. Quando questiona, provoca primitivos sentimentos a homens e mulheres presumidamente polidos e socializados, desde aqueles cultos aos que se presumem ser. Excludêncio ouviu dizer de uma mãe que ele não seria bom professor de seu filho, por lhe faltar "empenho". Mas resolver todos os exercícios para esta mãe, ah, isso sim ele pode, e com que confiança! Pobre Excludêncio.

De tanto ouvir o vocábulo "letramento" (confesso que antes não estava nem aí para ele), resolvi buscar apreender seu aspecto imaterial, ou seja, a semântica de seu termo (se bem que acabei descobrindo outra coisa). Ou, no dizer de Copi, partindo de sua "intensão" (sim, com 's') à sua extensão. Mas para compreender adequadamente o letramento, é necessário entender de alfabetização, utilizando o mesmo critério. E também não estava nem aí para ela. Curiosamente, escrevendo estas coisas, acabo de perceber que letramento e alfabetização formam um belo casal: ele e ela. Não é à toa que os dois, no universo da linguagem, formam uma só carne. O letramento foi tirado da costela da alfabetização, ao passo que a mulher foi derivada do homem. Tanto um quanto outro, tomados isoladamente, são estéreis, mas em conjunto possuem alto poder de fertilidade e perpetuação de seu gênero. Assim, não faz sentido alfabetizar alfabetizando e letrar letrando, pois, já nos alertava Heráclito de Éfeso, o ser surge da conjunção dos opostos (e não do antitético).
Dizem que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Magda Soares* meteu. Mas não no sentido de inflamar ainda mais a confusão conceitual de ambos, mas para purificar-lhes na mentalidade alheia a essência de cada um. O casal, outrora alvo de entulhamento semântico, voltou aos poucos a fazer as pazes com o turbulento mundo acadêmico. Promoveu sua equilibração.
Continuando minhas digressões, percebi que ainda ficaria incompleta a compreensão de alfabetizar sem atentar àquilo que ele indica: a palavra, tanto em seu sentido material (oral ou gráfico), quanto em seu sentido imaterial, semântico. Intuitivamente cheguei a Emília Ferreiro. E percebi algo "esquisito", pois foi no início da década de 1980 que a psicogênese da língua escrita bombou. Foi em meados da década de 1980 que emergiu também a palavra letramento. Foi também nesta década que o mengão foi campeão mundial.
Aí eu me pergunto: parece que houve alguma variável nas entrelinhas, latente, que permitiu expressiva correlação entre a psicogênese da língua escrita e o nascituro letramento. Suponho que a culpa foi da palavra. No princípio era o verbo. Eu prefiro dizer que no princípio era o substantivo, que é o rei da classe de palavras: tudo deriva dele. O substantivo indica o ser; parafraseando Anaxágoras, o ser é a medida de todas as coisas. Minha intuição diz que o que a Emília foi para o sítio da alfabetização, com "sua" psicogênese, Paulão foi para a roça dos canavieiros, com "sua" palavra geradora, o que eu chamo de sociogênese. Por isso desconfio de que um e outro nasceram de mãos dadas. É fácil perceber, pois, o movimento pendular ora voltado para o letramento, ora para a alfabetização, porque o equilíbrio é sempre produto da tensão dos opostos, nunca de termos contraditórios. Ah, nada neste mundo se perde ou cria, tudo se transforma em "novidade": a palavra contém em si toda uma lógica social (servindo também como pedra angular) e psicológica.







Uma estrela no céu, quando morre, gera outros tantos astros brilhantes, de modo que até o que não possui luz própria, antes faz-se vivo a espargir seu brilho, coroando o vigor de sua gravidade numa elíptica e constante audiência. Entre os homens, onde há dois focos de luz, ambos se ofuscam, e quando um morre, é porque foi morto por outro. Lembro-me, divagando sobre o cosmo, que um buraco-negro no espaço, de tão imensa gravidade, é capaz até mesmo de sugar a luz, impedindo sua reflexão. Mas curiosamente, praticamente todas as grandes galáxias possuem em seu núcleo um buraco negro. Como algo que nem mesmo poupa a luz é capaz de receber luminosa vênia de toda uma galáxia? Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Assim são os homens: gravitam mais poderosamente diante dos poderosos, estes alimentando-se de tudo aquilo que não é dele; aqueles, literalmente servindo-se de vaidoso alimento... Nem tudo que reluz é ouro. 
Mas este hediondo monstro cosmológico, quando já farto de se alimentar da matéria alheia, na sua gula insana e empedernida, provoca aquilo que é considerado um espetáculo sem par no macrocosmos: literalmente cospe luz! A isso chamamos de quasar, algo tão extraordinário que supera e muito o brilho de uma galáxia inteira. Entendi, por entre metáforas, que o homem cheio de si é sempre vazio. Que o homem vazio de si sacrifica os outros. Que o homem, farto dos outros, morre a si mesmo. E nesta condição, jamais refulgirá em sua própria luz.

Mais dúvidas pedagógicas...


1. Se um deficiente intelectual congênito, depois de muitos anos de improficiência no entendimento das coisas, for "curado", despertando a um estado normal de inteligência, será que ele aprenderia melhor pelo fato de possuir maior capacidade, ou terá dificuldade de aprender novas coisas, pelo fato de sua compreensão anterior ter restringido bastante suas referências de aprendizagem (assimilação e acomodação)? Sua zona de desenvolvimento real será maior que a sua zona de desenvolvimento proximal?
2. A lei assegura a todos os alunos o acesso e universalização do ensino, ao passo que exige sua identificação civil (nacionalidade e naturalidade) para ser matriculado. E se na escola houver um aluno apátrida, ele seria educado ou ensinado, alfabetizado ou letrado como "aluno", cidadão ou pessoa? E se esse aluno cometer ato infracional, como será punido, sem o devido registro civil?
3. Se um aluno perder todos os sentidos, desde que não perca a consciência, presumo que ele ainda possa aprender. Mas como se daria este aprendizado, se tudo o que "alimenta" a mente vem necessariamente pela representação, ou seja, de maneira mediata? Mas como não aprenderia, se ainda mantém a lucidez?

DÚVIDAS PEDAGÓGICAS


Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. (Art. 3° da Lei de Introdução ao Código Civil).

Um homem pode ser letrado, cujo aprendizado ocorre geralmente em contextos informais, mas isento duma "competência alfabética". Porém, a alfabetização por si só não implica um grau satisfatório e complementar de letramento. Sabe-se que toda regra possui exceção. Neste sentido, como formular uma defesa jurídica para cada cidadão, quer seja letrado, quer seja alfabetizado? Em que nível o letrado compreende a lei? Qual nível de compreensão normativa possui o alfabetizado? E se alfabetização e letramento fundirem-se numa só pessoa, seu conhecimento legal seria apriorístico, real, ou potencial, prospectivo? Pois o primeiro parece aprender muito mais pelo exemplo, de maneira intuitiva e assistemática, do que pela escolarização. Ora, um exemplo pode ser tanto bom, levando ao bom comportamento, quanto mal, levando ao conflito. O segundo compreende as palavras mas não necessariamente a principiologia das normas jurídicas. Mas a todos é imposto o cumprimento da lei. Então como uma pessoa alegaria conhecê-la, quando há diversos fatores que favorecem seu desconhecimento?
Os deuses não erram: sentenciam. 
Os mortais, estes sim erram, e silenciam.
Os deuses não falam, pronunciam.
Mas os súditos, estes sim exalam o que eles fiam.
Os deuses passarão neste vir a ser... dialética.
Os mortais, que não passam, passarão...enteléquia.
Os deuses, neste vir a ser, não são.

Os súditos, pelo vir a ser, serão.


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Eu tenho na mão uma letra
um vê apenas a forma
outro, o conteúdo
mesmo assim não vê tudo.
mesmo assim não informa.


Eu tenho na forma poética
um vê apenas palavra
outro, apenas estética
obstante calava
sua veia noetica.

Eu tenho na voz um poema
um vê apenas a rima
outro apenas grafema
oculta na ideia prima
e oculto no entimema.



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Entrevi e li
nas entrelinhas
as coisas que são só minhas
e na lembrança guardei.
Até diria, mas não sei falar
e lê-las em alta voz
para mim e para nós.
Prefiro, pois, estar a sós.
De fato não sei se sou deus
ou se rei
Mas eu bem sei
sou vaga distância
que vive o instante
a ser lido.
Mas eu duvido.
Quando ouço falar
desses olhos que leem
o tempo
paro por um momento
e sento.
Não quero vagar
pois cansado estou
prefiro andar parado
e levado para onde vou.


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Ao aluno atrasado, olhos fixos.
do adiantado, desviam os olhos.
ao atrasado, oferecem a mão.
ao adiantado, a contradição.
Ao adiantado, uma bela rasteira
Ao atrasado, roda de capoeira.
ao adiantado, rabo de arraia e pisão.
O atrasado é concreto.
o adiantado, ser abstrato.
ao atrasado, afeto, carinho e tato.
o adiantado, estupefato!
ao atrasado, amor e carinho
tanto aqui dentro e la fora.
o adiantado é sozinho
mesmo dentro da escola.

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Vinicius Simas do Nascimento

sábado, 4 de outubro de 2014

Desabafo

Minha forma de raciocinar, aprender, o tempo que gasto para ler é radicalmente diferente dos demais, pelo menos é o que percebo. Quando me preparo para uma prova ou trabalho, geralmente leio tudo o que for possível antes, e apenas nas vésperas escrevo e/ou apresento mentalmente o roteiro do discurso. Para mim isto é extremamente vantajoso, pois gosto de pensar em muitas coisas e fazer muitas associações. Isto me dá segurança, sensação de domínio sobre a matéria. Mas em grupo isso é muito ruim: primeiro porque não combina em nada com prazos. Segundo, porque não combina nada com o "raciocínio mais prático", ou para ser sincero, o raciocínio parafraseado, mecanizado, de muitas informações pesquisadas. De repente alguém entenda este comportamento como arrogante. Eu entendo como autoconhecimento, introversão, que é diferente de timidez ou falsa modéstia. Santa Tereza Dávila e Santa Faustina diziam que a humildade é a verdade. Se sou verdadeiro comigo mesmo, não tem como ser arrogante, ainda que pensem tal coisa de mim. Perceba que isto claramente leva a divergências de ideias e ao conflito. E por quê? Porque eu não penso como os demais. Intuitivamente percebo que me dou melhor com as pessoas mais maduras e inteligentes. Me sinto bem ao lado de pessoas mais cultas, pois geralmente a estratégia de aprendizagem delas assemelha-se às que eu apresento (não é questão de menosprezo aos demais).

 Na maioria das vezes preciso de constante estímulo para "avançar" num conteúdo didático. Na verdade, quando me interesso por algo, eu só saio dele quando tiver "esgotado" o assunto. Por isso não me dou bem com essa linearidade curricular. Mas não me dou bem mesmo! Esta foi a causa suficiente por ter abandonado quatro faculdades (se bem que em uma as razões foram outras e razoavelmente fáceis de serem corrigidas). Veja que ironia: já ouvi muitas vezes que essa forma de aprender, debatendo, argumentativa, é muito válida numa pós-graduação. Ótimo, sendo eu essencialmente desta forma, não poderia "pular" para uma pós sem antes passar pela massacrante graduação. Sem graduação, sem pós, logo, sem chance de ser o que sou em lugar nenhum. Estaria sempre numa conditio sine qua non, num vir a ser que não virá nunca e pelo qual nunca serei. Os conteúdos acadêmicos muitíssimas vezes são desinteressantes, não pela qualidade deles, mas porque eu gosto de debater, aprofundar, questionar, e isto leva as pessoas a pensarem que estou adotando uma linguagem agressiva e parcial, como se fosse um argumentum ad hominem. Ou eu não estou adequado ao conteúdo, ou eles não estão adequados a mim. Muitas vezes não encontro quem me compreenda, quer meu raciocínio, quer minha crítica, ironia, interesse. Alguns gostam, a maioria detesta, e eu fico para trás, frustrado. Repito: não me dou bem com prazos. Se eu pudesse, viveria pesquisando, escrevendo e postando seus resultados. Mas não posso, e isso me irrita enormemente.

Aprendi que a oralidade está para a prática social da fala, e o letramento está para a prática social da escrita. Também aprendi que o homem se desenvolve em sociedade, é um ser gregário. Mas a sociedade não é igual, e no dizer de Ives De la Taille, a tirania do grupo é muitas vezes pior que a tirania de um homem só. Ora, como posso ser "letrado e oralizado" se o boicote social tem uma linha de corte pautada pela média, pela homogenia? O respeito à diferença parece ter a gravidade de um cometa: quase nula. Mas a gravidade da média parece ser a de Saturno: esmagadora. Quantas vezes deixei de dizer algo pelo simples motivo de evitar "polêmicas". O problema é que isso me pesa, me corrói por dentro, me faz degringolar ora para um silêncio absoluto, ora para uma maneira mais expansiva de falar, diálogos em paralelo para me energizar em detrimento do tédio que sinto, ora procuro ao máximo prestar atenção no conteúdo para ver se ele me interessa. Mas a verdade é que todas as vezes que me violento, quando esta violência simbólica me atinge, perco a harmonia comigo mesmo. Converto-me num homem com um mundo estilhaçado. Me converto num prosélito do currículo oculto, da tirania da média, quando a moda estatística também deveria ser levada em conta neste continuum.Deveriam ser considerados os desvio-padrões, os percentis. Mas a média acha que é dona da democracia, por presumir ser a maioria. A média julga estar no topo do sino, na crista da onda.

 Tenho algumas ideias escritas no âmbito acadêmico, pelo menos uns seis projetos de pesquisa a serem desenvolvidos. Escrevi algo sobre métodos de ensino, sobre método de compreender a História, estou escrevendo um trabalho que permite identificar argumentos e valeria até como prova pericial para detectar plágio (se eu tiver saco termino ele). Mas o que ainda me falta é, digamos, aprender melhor as ferramentas de pesquisa. Preciso aprender mais a fundo as nuances das pesquisas, extensões e limites. Ah sim, existe a Iniciação Científica (..). Preciso de boas notas. Mas nota é um padrão arbitrário. Não tem correlação perfeita com conhecimento, interesse e criatividade, por exemplo. Não se correlaciona perfeitamente com outros elementos da aquisição do conhecimento, por isso julgo ser um instrumento válido, mas com sérias restrições, e não poderia ser adotada como critério majoritário para se estimular alguém a pesquisar cientificamente algo.

 Existe uma ideia populista no ambiente acadêmico (que para mim não tem muita lógica) que desenvolver trabalhos em grupo ajuda na sociabilidade. Digo que é um argumento fraco porque o aluno não se socializa apenas na escola, de modo que se ele se der mal socialmente nela, necessariamente refletiria sua inadequação em vários contextos sociais. Esta é uma generalização apressada. Aliás, se há conflito, é necessário saber elencar as inúmeras possibilidades que as eliciam, o porquê delas. Num esporte coletivo, uso tanto minha inteligência cinestésica quanto a intra e interpessoal. Nunca tive problemas de relacionamento no futebol, na capoeira pelo simples fato de ser diferente e incompreendido no contexto escolar. Me dou muito bem com muitos professores e muitos alunos, e nunca desenvolvi nenhuma interação em grupo com eles. - Em decorrência de todas estas premissas que apresentei, inevitavelmente já entrei em conflito com algumas pessoas com as quais tive de trabalhar em grupo. Isto me desmotiva de tal maneira que decidi muitas vezes não mais fazer parte dele (e talvez de grupo nenhum). É uma frustração atrás da outra. Para ser bem sincero, não gosto desta arbitrariedade de escolha, a não ser que seja algo de extrema relevância. É verdade que no ambiente laboral não escolhemos as pessoas com quem vamos trabalhar. Mas escolhemos os trabalhos com os quais nos identificamos. Neste aspecto, é bem provável que as pessoas se identifiquem pelo modus operandis, e não simplesmente porque estão lá, executando um serviço. A visão que tenho desta aleatoriedade na escola é justamente o contrário: muitos estão lá porque foram colocados, dispostos nesta perspectiva "baumanniana", onde vale mais uma coisa que está bem formatada no conjunto, e que nada vale fora dele. Assim, um sapato nunca poderia ser colocado numa escada, mas num "lugar adequado". Este "algo em comum" nos grupos parece uma selva, o homem lobo do homem. Quem tem aptidão natural para liderar acaba não liderando, quem é imatura emocionalmente quer vencer no grito, e o grito acaba vencendo, não por medo, mas por conveniência. A Homeostase de tal gueto despendiaria um grau elevado de energia mental, então, por parcimônia, deixa-se tudo "em seu devido lugar". Isto é trabalho em grupo? Vejo isso o protótipo de uma sociedade primitiva. Rousseau já dizia que a sociedade corrompe o homem, enquanto que a Igreja diz que o pecado individual é que corrompe a sociedade. O grupo corrompido é tirano. O indivíduo corrompido lidera o grupo primitivo. No grupo não há regras claras de comportamento. Não há um consenso baseado na ética natural das coisas, mas numa espécie de individualismo coletivo. Lembra perfeitamente aquelas crianças pré-operatórias, egocêntricas. Quem vê de fora acha que vê sinergia, quem vê de dentro só vê a si mesmo. É isto trabalho em grupo?!


 Vinicius Simas

ARROGÂNCIO.

Conheci um aluno chamado Arrogâncio. Dele dizem tantas e tão vivas polêmicas, que para retratá-lo, melhor seria por tinta e pincel do que caneta e papel. Pois bem... Era uma vez Arrogâncio. Era e continua sendo. Não deixará de ser. Na escola, um desviado. Não, ele não é revoltado ou sociopata! Ele é a perfeita materialização do desvio-padrão, da via de regra na contramão. Perguntador, curioso, holístico, criativo, perspicaz, se bem que um tanto dispersivo, se preocupava mais com a verdade das coisas do que com a falsa ilusão do conhecimento. Para ele, muitos de seus professores eram ilusionistas. Exatamente, encantavam alunos com teatrais discursos, enquanto Arrogâncio nunca foi chegado a estas tolices.

Curiosamente, Arrogâncio sempre encontra professores doutores que gostam de escrever "sou doutor" no quadro negro. Isto acontece porque está a ver um monólogo, assitir um stand up comedy, onde o show é do doutor, e sua luz deve brilhar, enquanto ele assiste impaciente. Arrogâncio sai destas apresentações sem aprender nada. Ele vê claramente que o doutor quando ameaça ou ameaçado, usa seu título, quando recompensa ou recompensado, usa seu título, quando grita ou se acalma, usa seu título, de corpo e de alma, usa seu título. Mas sabe que não há nada de essencialmente professoral nestas teatrais apresentações. Os outros aplaudem admirados, enquanto Arrogâncio não pode aplaudir a ausência de um doutor de verdade. 


 VINICIUS SIMAS

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O aluno entra na sala. O professor, sentado, já o espera. Inicia-se o discurso, não feito de palavras soltas. Antes, por uma linguagem corporal assaz eloquente, persuasiva. Vivemos em tempos modernos. Criticamente moderno, onde o novo copia o antigo. Um detestado por outro, um evocado pelo outro. E desta feita, assim se faz, monta-se o quadro, a cena, o palco, os atores, professores, alunos e todo o resto. Os últimos acompanham os primeiros, que outrora também foram últimos, que se presumiam, apressadamente, "primeiros." Assim se pensa. Exatamente isso, assim se pensa. De segunda a sexta, com um grau maior ou menor de flexibilidade, tudo flui, tudo se intenta, o plano de aula na aula segue (e tão somente na aula), até que o tempo a separe de outra, ou estas de um intervalo. Passado este interregno, o aluno novamente senta, e o professor, como sempre, já o espera. Mas espera pouco. O tempo corre. O professor é remunerado em função do tempo, o aluno recompensado em função do espaço: o lugar onde senta. Trabalha-se o conteúdo tal como o palhaço no circo: há certa novidade nem tanto nas apresentações, mas na forma como é apresentada. Na prática, tudo redunda no mesmo. Que não se ofendam com a analogia. O palhaço também não se ofende com seu trabalho. Sou persuadido a dizer que, onde se percebe padrões, supõe-se uma "intelligentia" apriorística. Apesar dela ser em si mesma boa, não presume-se tão apressadamente sua qualidade pelo simples fato de se perceber padrões. Algo pode ser criado, mas não bem pensado, ou não tão bem pensado e satisfatoriamente criado. De repente vivemos um modelo onde as coisas se revezam nesta lógica. Aí, quando se pensa, já se fez, e revolvendo-se em pedagógico remorso, pensa-se mais, e novamente não atingindo seu intento, reelabora-se o discurso, que redunda novamente em sua eterna e cíclica redundância. Sim, o tempo não para de redundar, quando se pensam, criativamente, nas mesmas coisas. Os atores mudam, as coisas não. O gênero nunca perece.
Penso que a Educação deva passar por um processo de purificação dos seus conceitos e princípios. E não vejo hora mais oportuna do que esta. Precisa se libertar de todo entulhamento a que fora acometida. É uma tal de escola nova com suas recicladas ideologias, um tal progressismo que, no intuito de estreitar a relação professor/aluno, quase que solapa até a base a necessária relação hierárquica, que em si mesma é e sempre haverá de ser saudável. De repente, valoriza-se o novo simplesmente pelo ar de novidade que exala. E Desprezamos o antigo pelo simples fato der "velho". Enrugamos forçosamente o passado, como se o tempo em si envelhecesse. Também as plásticas são forçosas, já que não-naturais. Talvez o futuro a que aspiramos não passa de uma projeção estética, vazia de conteúdo. Poucos transcendem a aparência. De repente levantam-se vozes acusando até então uma novidade "ad aeternum": há oprimidos e opressores também em matéria de educação. Mas uma impressão intuitiva me alertou para algo não menos interessante: não se estaria justificando a realidade da opressão exagerando-se, pois, a realidade do oprimido? Iisto não beira mais a ideologia do que algo "ipso facto"? A Educação parece hoje que vê o mundo com este olhar de soslaio, e que se prende demais a pequenas estruturas, pequenos recortes da realidade com suas teorias (algumas mais queridas que outras). Assim como ocorre com os fractais, em que , tanto uma pequena estrutura quanto o todo mesmo possuem a mesma forma, também a educação quer construir e reconstruir sua identidade com as mesmas e limitadas teorias. Acontece com a Educação o que acontece com nossa personalidade: quando reprimida demais em regras, namoramos o liberalismo, esbarramos na libertinagem, passamos por uma ressaca moral, e qual náufrago na iminência de afogar-se, aninha-se desesperadamente a qualquer objeto que flutue e lhe sirva de âncora. Temo justamente estas últimas. As boias que lançam frequentemente para que aquela não se afogue tem odor de socialismo, tem cariz de comunismo, tem uma essência que, sei lá, não se mistura com aquilo que é o substrato da educação. O mundo tem estrutura e ordem, o saber adquirido é antes um saber hierarquizado, um permanente "sine qua non", e não significado meramente subjetivo na cabecinha de cada aluno. A própria didática contradiz com silenciosos berros a toda esta filosofia "socializante" do ensino, do saber e de seu sistema.
Dias virão em que o professor terá orgulho de si, e não deixará medir sua importância no mundo pela métrica do dinheiro, salário, abono, remuneração. Sonho com este dia, em que vejo esse professorado feliz, com elevada autoestima, sem afetações de orgulho ou falsa humildade, plenamente consciente de si e bem consciente de sua posição no mundo, de sua postura política, moral, social e "humana". Um professorado que tem por motivação constante a busca sincera pela verdade, e a coragem de transmiti-la. Um professorado que, olhando para trás, se orgulha do que fez, porque nunca olhou para trás quando ainda não havia alcançado o seu sonho. A sociedade dele depende. O professor é este tesoureiro da cidadania. Do mais modesto ao mais eminente homem, todos passaram por sua antessala, que é um ensaio do mundo, a moldura da sociedade. Cabe a ele formar a imagem fiel do homem bem sucedido ou sua hedionda caricatura. Mas que este último não aconteça nas mãos deste professorado feliz.
A distância física na sala de aula favorece a distância emocional, que favorece certos escrúpulos em relação a um ou outro colega distante, que favorece animosidades escrupulosas, que alimenta a mesma animosidade, até que surge inimizades tolas. Algumas pessoas não descansam enquanto não se cansam. Quando estão bem com os outros, estão mal, mas quando estão mal, aí é que se sentem bem. Esquisito, mas é assim que acontece. Um alimento poderoso para as animosidades é um corrosivo natural: a fofoca. Ela destrói as boas relações de fato e as potenciais relações. Ela destrói aquela saudável curiosidade em conhecer melhor um companheiro de sala de aula: do sorriso outrora visto, nasce, da noite pro dia, um rosto sisudo, lábios cerrados, expressão fechada, olhar vago, falta de afeto. Se é verdade ou não aquilo que ouvem os ouvidos, ou o que se supõe ver, não importa. A fofoca tem boca torta. É o que na linguagem jurídica se chama "erro de tipo". Na Psicologia, podemos avaliar erradamente um fato, mas a resposta emocional ser perfeitamente adequada. Mas assim como a luz tanto mais difusa fica quanto mais distante está do observador, a fofoca é tanto mais corrosiva quanto mais longe da verdade. O ouvido tanto mais enganado quanto mais inclinado para estas frivolidades. Mas quem se ressente com a fofoca ou nela acredita, não erra tanto na avaliação do fato: erra mais em dar-lhe ouvidos. Já dizia Guimarães Rosa: "as pessoas afinam e desafinam." Mas com que artificialidade mesquinha nós tratamos o natural desafino de nossos colegas? Quanta incoerência! Se desafinamos com o mal, temos antes um severo potencial para afirmarmos no bem, e criarmos essa admirável sintonia fina entre as pessoas! E por que não percebemos isso? Temos um olhar treinado para perceber aquilo que desafina, como um fim em si mesmo, e mesmo sem fim. Ora, ninguém nasce para si mesmo, ninguém deu a vida para si mesmo, e ninguém realiza a si mesmo sem o outro. Isolar-se é a atitude mais ignorante da ignorância. Negar um sorriso é atitude indecorosa, indelicada, imbecil. Esta lógica é tão exponencial quanto quadrada. Sim, merece o adjetivo que tem, pois é uma lógica burra. Sabemos que todo mal exige reparação. A justiça o exige. Quebrar um vidro até merece perdão (como todo erro), mas não concerta o mesmo vidro quebrado. Da mesma forma, que gostosa reparação não seria um sorriso cativante dos que estão lá na frente, e também dos que estão lá atrás, do lado direito e esquerdo. Dos que entram e saem da mesma sala, ambiente de todos. Uma imagem caricaturada merece necessária desambiguação. O entulhamento de uma personalidade merece um honesto processo de limpeza, sobretudo ética, moral. Se é dura a reparação, visto que o orgulho se levanta como barreira ou falsa defesa, muito melhor seria se não os cometêssemos. Mas o que importa o erro? O perdão é sempre gratuito, o amor é sempre gratuito, e quem não tiver a necessária força para reparar, estamos aqui muito mais para amar do que para condenar. Afinal, faço questão de oferecer a melhor imagem, de formar nos outros a melhor imagem, e mesmo desafinando, a perfeição é a meta de nossa própria imagem.
Curioso fato acontece em nossas escolas, e com esquisita frequência: pressupõe acelerar quem deveria ficar retido, e tende a reter quem revela consistente potencial a um desempenho acadêmico elevado. Tudo isso indica, forma e limita o aluno pela média, para a média e enquanto média. Os extremos são colocados de lado, desprezados enquanto não incluídos neste eterno ciclo do mesmo. Não trata os desiguais como desiguais, mas a todos igualam para instrumentalizar melhor este conceito frustrado de educação emancipatória. Os extremos caem numa desastrosa retórica: enquanto exceção, confirmam a triste regra. Mas é fundamental que, para mudar esta realidade, seja imprescindível à exceção subsistir enquanto tal.
Sabe aquela aula em que o professor repete duzentas e setenta e nove vezes uma coisa que você já sabe há zilhões de anos, quando basta-nos um só exemplo para entendermos o assunto? Isto pode ser sinal de grande interesse, motivação, potencialidade. Sabe aquela aula em que o professor repete duzentas e setenta e nove vezes uma coisa que você deveria dominar há zilhões de anos e que não entra em sua cabeça, ainda que memorizável desde a primeira repetição? Isto pode ser sinal de tédio, desinteresse. Em ambos os casos, isso pode ser sinal de uma grande inteligência desperdiçada... As pessoas não iguais, ou melhor, não é sadia uma igualdade que cria um "nivelamento a rodo", nivelamento que nem mesmo na natureza se encontra. Eis aí uma forma de violência muito velada. E toda violência é uma negação do desenvolvimento de uma pessoa. E esta negação da pessoa é a negação da própria Pedagogia. Sabe aquele provérbio japonês: o prego que sobressai é logo martelado"? Quem sobressai na sala de aula logo é tratado como orgulhoso, inquieto (lógico, alguém perguntou se ele sabe ou não isto ou aquilo? A Velocidade com que aprende as coisas? Cadê a avaliação diagnóstica?!), importuno, arrogante. É taxado de nerd, o "sabe tudo" (só quem sabe tudo é Deus), alvo de expectativas estratosféricas, irreais, burlescas. Grande injustiça. O aluno crítico incomoda, e veja - nos discursos, falamos muito bem em valorizar talentos, pessoas emancipadas, críticas e conscientes. E quando nos deparamos com eles, é como quem vê sem enxergar, ouve sem escutar, sente sem qualquer sensibilidade. A escola (incluindo a faculdade) é ambiente especialista em matar, sufocar, estrangular, degolar a sangue frio toda espécie de boa dotação e talento. O aluno diferenciado é obrigado a se conformar numa falácia de bifurcação: ou permanecendo calado, incomodado porque não incomoda, ou conformado com a "média", ainda que acima dela.
A escola desempenha um papel importantíssimo na sociedade que se presume aprendente. Possuindo potencial metafísico e inclinação à criatividade, seu produto mais premente e historicamente original é o aluno idílico, incorpóreo, intangível. As metáforas não param por aí: aluno inflável, movido a hélio, rarefeito, que se desenvolve rumo à axiologia do nada. Fiel às suas origens, este imaginário aluno possui uma essência epistemológica curiosa. Sim, essência tanto no sentido de origem, singularidade, razão de ser ou (não ser), quanto questão de atributo, característica, cognoscível por razões estéticas. A Educação retesou seu velho bodoque, mirou aonde o nariz apontou, lançando infindos dardos no espaço-tempo; e por falta de precisão, atirou todos no vazio, no intangível, acertando-o em cheio! Até porque se o incorpóreo encontra-se em toda parte, é possível que não se faça notar em lugar nenhum. Aquilo a que chamamos de "nada" ou de pouca importância, parece fazer muito sentido na ciência (enquanto saber) do educar. E este nada é você, oh imaginário, sim, você, que diz ser alguma coisa, contrariando toda hermenêutica, porquanto presume ser o que é propriamente. E desta forma, escola te cerca e te apreende! A realidade, em toda sua bela consciência e vontade, ainda que escusada, ignorada num canto qualquer, passa em branco com seu vivaz colorido. Falo deste canto na perspectiva Drummoniana, visto duma poética janela chamada ponto de vista, introspectivo, por sinal, mas bem preciso. E este canto é o mundo. O seu mundo, com seus significados. A janela, não sei de quem... Oh funesta Educação, que em sua triste realidade e tão pobre de realismo, não lida bem com abstrações! Uma covardia e tanto! Todo algo sem forma vaza e intenta assumir a forma das coisas definidas, mesmo sendo estas de difícil ou nenhuma definição idiossincrásica. Oh educação que não se define! Perderá toda sua essência concreta, sólida e perene, inclinando-se, por necessária conclusão e consequência, ao ilusionismo (uma desonestidade intelectual, pois a mente foi feita para conhecer a realidade e a verdade), afastando-se até mesmo de padrões filosóficos, que exige uma definição radical, rigorosa e de conjunto daquilo que é em si mesmo, da sua razão de ser.

Educação Orientada a Projetos

Seria interessante ver uma escola onde o currículo seja orientado fundamentalmente a projetos, com a participação efetiva de todos os alunos (sujeito principal) na resolução de situações-problema, na experimentação, enxergando toda exposição teórica como uma ferramenta prática, aplicável. Sua implantação ocorreria e se fundamentaria em substituição ao processo avaliativo por meio de provas dissertativas e optativas, sem mitigar, obviamente, a necessária hierarquia dos conteúdos e das séries (ao contrário da tendência comunista e socialista do ensino). A razão de ser da didática está na sistematização e ordenação do saber. 

Ora, onde está a ordem, necessariamente está a hierarquia. Tudo o que faz sentido, na mente e no mundo, tem sua estrutura hierárquica. Caso contrário, teríamos sérios problemas em resolver conflitos de valores em nossa sociedade, porquanto não teríamos diretrizes alguma. O aluno deve ser orientado para projetos, e não para as provas. O sucesso de seu empreendimento mede o sucesso de seus estudos. Não vejo instrumento melhor de se praticar todas as habilidades necessárias para o êxito do educando senão por essa via. Entendemos por projeto um conjunto de atividades e recursos (neste caso pedagógicos) no intuito de se criar um produto único, singular e que funcione no cotidiano. Aqui importa fazer uma diferenciação: por que projeto e não interdisciplinaridade? Escolho a primeira, não em detrimento desta última, porque aquela tem sentido mais direto, pragmático. Ao se falar em interdisciplinaridade, ainda existe grande risco de se aglutinar matérias num tema em comum e nada ser produzido pela sinergia entre elas. Tal não ocorre em grande escala nos projetos, pois este só possui razão de ser quando for planejado, executado, controlado (avaliando sua execução passo a passo) e finalizado. E, claro, sua finalização, tanto no sentido de término quanto de intencionalidade, é um produto executável. 

A interdisciplinaridade (ou transdisciplinaridade,etc) não trabalha, necessariamente desta forma, com esta metodologia, e talvez nem com a mesma finalidade. Sabemos que, quanto mais nos envolvemos numa atividade programada, mais clareza temos de seu processo, mais objetivo fica nosso raciocínio, mais arguta nossa memória, mais afiadas nossas capacidades intelectivas, e estes elementos reunidos contribuem fortemente para manter acesa nossa motivação, ainda que com pouco estímulo externo. A escola pretende, transcendendo o plano teorético, identificar, fomentar, desenvolver, aprimorar e avaliar não só o conhecimento adquirido, mas as habilidades sociais e psicológicas de cada aluno necessários para tornar-se uma pessoa madura e crítica, tais como a capacidade de comunicação, o relacionamento inter e intrapessoal, a intuição, motivação e atenção persistente, alto grau de curiosidade, capacidade de se atentar a detalhes sem perder a visão de conjunto, a capacidade de ter uma visão holística sem desconsiderar as partes que compõem o todo, capacidade de compreender outras entidades conscientes em diferente grau de profundidade, capacidade de liderança e a inteligência emocional. Tudo isso é necessário para desenvolver um produto útil e que faça todo sentido tanto para o aluno, como para a comunidade em geral. 

Pensem numa escola assim, onde a química envolve-se organicamente com a biologia, a filosofia, a matemática, Português, etc. Sua vantagem é que cada aluno é como que "desafiado", ou inclinado a determinada matéria com a qual possui afinidade e, paralelamente, nenhum projeto logra êxito sem a participação conjunta das pessoas, Logo, ninguém sentir-se-á desmotivado em dar sua contribuição ou superar seus limites. Uma estratégia muito curiosa que nosso cérebro utiliza para aprender coisas que, a princípio, não desperta interesse, é aproximar este conteúdo desinteressante a algo que realmente o interessa. desta forma desenvolvemos uma "plasticidade" que favorece, e muito, a criatividade, a inventividade, as inovações, que podem ser traduzidas, mais adiante, na cura de uma doença grave, uma nova metodologia ou numa nova maneira de enxergar o mundo. Numa Pedagogia orientada a Projetos não haveria escusas indesculpáveis de que um aluno não poderia se adaptar a este estilo de ensino, a não ser que o processo de estimulação por parte do professor seja gravemente deficiente. Quando não transformamos o conhecimento em um produto útil, tudo se perde e nada se cria.

Sensibilidade

Recentemente conheci uma realidade nova que me causou profundas e positivas impressões. Tive a oportunidade de visitar uma clínica de tratamento dos AA (Alcoólicos Anônimos) e dependentes químicos, e pude perceber a seriedade do trabalho dos profissionais, cujo objetivo comum é simplesmente resgatar a dignidade destes irmãos através da busca da verdade, do autoconhecimento, do resgate consciente da própria dignidade. Em momento algum vi nesse lugar algo que conotasse um tratamento de "auto ajuda", superficial, romântico, ingênuo, "literário". Pelo contrário, percebi ali uma rigorosidade ética impressionante, uma disciplina humanizadora, uma firmeza moral admirável, um laivo perene de esperança (por vezes, tímidas lágrimas denunciavam isso, mas preferimos chamá-las de "brilho no olhar"), uma contagiante serenidade do ambiente, do tempo e do espaço, do momento, das conversas, ainda que, de fato, percebesse também a angústia dos familiares, o drama da vida quotidiana reverberada nos gestos e na fala fragmentada de cada um, nas vozes sôfregas e até mesmo num tímido silêncio e na falsa agressividade dos gestos. Aqui apresento-me as coisas como narrador onisciente. Vi os detalhes, mas não denuncio as pessoas. Deixo-as lá, autênticas neste momento cristalizador, e desejo contribuir nisto precisamente com meu silêncio. Considero cada dignidade anônima, e isto já denuncia o imensurável valor que cada uma contém. Por isso devem ser preservadas, assim como o tesouro "escondido" de que nos fala o Evangelho. E é justamente na Boa Nova que se fundamentam todos os valores deste espaço de esperança e humanizador. 

Ao defender com sobriedade a busca de si mesmo, recorrendo tão somente à verdade psicológica e moral de cada indivíduo, vejo neste gesto, aludindo à Tradição da Igreja, a atitude de Verônica, que sensibilizada pela paixão de nosso Senhor no caminho da cruz, ofereceu-lhe um pano para lhe enxugar a face ensanguentada, acalentando-o em seu sofrimento. Da mesma forma que, como sabido, no pano gravou-se a face de Cristo, em gratidão por tão caridoso gesto, assim também todo aquele que não mede esforços para ajudar uma dignidade flagelada pelo vicio, mostra com autenticidade e longe de toda dúvida a marca mais proeminente do Cristão: o amor. Recordo neste momento das palavras do Papa Emérito Bento XVI: "Caritas in Veritate". Só existe amor na verdade, e verdade no amor. A verdade aparece quando elucida a dignidade insofismável do dependente. Percebi um grande paradoxo: dizem que a verdade dói, mas de fato é a verdade que nos dá a paz! É a verdade que nos dá exata dimensão de nós mesmos, quem somos, por que somos e de Quem somos. A verdade devolve a posse de si mesmo a quem de direito. Mas digladia com ela certas atitudes infantis (que parecem adultecidas, mas permanecem essencialmente infantis), pelas quais o paciente se justifica, autoflagela, expressa sofisticada "birra", manifestando com tudo isso um medo, uma angústia de um espantalho criado por ele mesmo. 

A verdade não tem medo de espantalhos. É o espantalho, por assim dizer, o último recurso, medonho, covarde, contra a verdade. A caridade se manifesta precisamente quando reconhecemos a dignidade de cada ser humano. E aqui recordo-me das belas palavras de São Leão Magno: "Oh cristão, reconheça a sua dignidade!". Aqui poderíamos dizer: cristão, reconheça a identidade de seu irmão, pois é imagem e semelhança de Deus! Percebi que neste espaço o "segredo" encontra-se nas entrelinhas que o amor e a caridade traçaram no caminho de cada paciente que ruma ao conhecimento de si mesmo, na sua inteireza. Isto me impressionou. O amor devolve sorrisos sinceros, esperanças sólidas, alimenta a alma com o justo e bom alimento, desenvolve a temperança, o ordenado uso das coisas, o justo raciocínio sobre elas, a correta percepção de mundo com seus utilitários, harmoniza o homem consigo mesmo, com a natureza e a sociedade, com o próprio Deus. A espiritualidade é essencial, tudo é necessário, tudo tem sua importância medida, traçada, calculada. Exceto o amor, pois sua medida é amar sem medida (Santo Agostinho). Extrapolo aqui os limites de uma simples reflexão. Ela toma agora ares de convite, de um convite altamente sugestivo, persuasivo, mobilizador. Como não perfeiçoa a si mesmo aquele que ajuda o homem a devolver-se e reconhecer-se digno de viver? Como não viverá bem aquele que vive para o próximo, na caridade? Qual ideologia será capaz de eclipsar o brilho desta verdade tão eloquente? Certamente, melhor seria praticar o amor do que saber defini-lo teoricamente. Para mim, a melhor definição de amor é ostensiva: está nos gestos, e que esteja sempre neles, para que nos arraste bons exemplos e pessoas de boa vontade.

PERCEPÇÕES AVULSAS

Existem professores e professores. Nesta diferenciação vou atentar meu texto e indicar toda sua conotação. Há quem lecione por prazer, há quem por dever leciona. Há quem tem prazer no ensino, mas leciona mal. E os que ensinam mal sem prazer algum? Há o que faz de si  grande amigo, e outros que fazem os demais, inimigos. Alguns incentivadores, outros, demolidores de sonhos. Uns possuem trato com criança, de outros não se diz o mesmo: num só vacilo o aluno dança. Mesmo sendo adultos, tratam-nos como criança. 

Detenho me na infância. Vejo-me nela. Dela colho inocência, de muitos só vejo arrogância. Dela, sinceridade. Deles, farisaísmo com a verdade: tudo deve ter forma e procedimento. Mas enquanto criança, recolho como brinquedo meu entendimento, devolvo numa caixa qualquer, afoitamente tropeço numa criatividade bem ali, esquecida no corredor - sendo eu tão distraído no ensino, quase o destruo...sou aluno, ora pois! Meu medo agora é de brincar com a verdade. Agora já está bem acomodada numa caixa qualquer, pois tenho hora, tempo e lugar para instrumentalizá-la, enquanto sou temerosamente assistido numa brincadeira cuja regra eu não criei.