Pesquisar este blog

domingo, 5 de outubro de 2014


De tanto ouvir o vocábulo "letramento" (confesso que antes não estava nem aí para ele), resolvi buscar apreender seu aspecto imaterial, ou seja, a semântica de seu termo (se bem que acabei descobrindo outra coisa). Ou, no dizer de Copi, partindo de sua "intensão" (sim, com 's') à sua extensão. Mas para compreender adequadamente o letramento, é necessário entender de alfabetização, utilizando o mesmo critério. E também não estava nem aí para ela. Curiosamente, escrevendo estas coisas, acabo de perceber que letramento e alfabetização formam um belo casal: ele e ela. Não é à toa que os dois, no universo da linguagem, formam uma só carne. O letramento foi tirado da costela da alfabetização, ao passo que a mulher foi derivada do homem. Tanto um quanto outro, tomados isoladamente, são estéreis, mas em conjunto possuem alto poder de fertilidade e perpetuação de seu gênero. Assim, não faz sentido alfabetizar alfabetizando e letrar letrando, pois, já nos alertava Heráclito de Éfeso, o ser surge da conjunção dos opostos (e não do antitético).
Dizem que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Magda Soares* meteu. Mas não no sentido de inflamar ainda mais a confusão conceitual de ambos, mas para purificar-lhes na mentalidade alheia a essência de cada um. O casal, outrora alvo de entulhamento semântico, voltou aos poucos a fazer as pazes com o turbulento mundo acadêmico. Promoveu sua equilibração.
Continuando minhas digressões, percebi que ainda ficaria incompleta a compreensão de alfabetizar sem atentar àquilo que ele indica: a palavra, tanto em seu sentido material (oral ou gráfico), quanto em seu sentido imaterial, semântico. Intuitivamente cheguei a Emília Ferreiro. E percebi algo "esquisito", pois foi no início da década de 1980 que a psicogênese da língua escrita bombou. Foi em meados da década de 1980 que emergiu também a palavra letramento. Foi também nesta década que o mengão foi campeão mundial.
Aí eu me pergunto: parece que houve alguma variável nas entrelinhas, latente, que permitiu expressiva correlação entre a psicogênese da língua escrita e o nascituro letramento. Suponho que a culpa foi da palavra. No princípio era o verbo. Eu prefiro dizer que no princípio era o substantivo, que é o rei da classe de palavras: tudo deriva dele. O substantivo indica o ser; parafraseando Anaxágoras, o ser é a medida de todas as coisas. Minha intuição diz que o que a Emília foi para o sítio da alfabetização, com "sua" psicogênese, Paulão foi para a roça dos canavieiros, com "sua" palavra geradora, o que eu chamo de sociogênese. Por isso desconfio de que um e outro nasceram de mãos dadas. É fácil perceber, pois, o movimento pendular ora voltado para o letramento, ora para a alfabetização, porque o equilíbrio é sempre produto da tensão dos opostos, nunca de termos contraditórios. Ah, nada neste mundo se perde ou cria, tudo se transforma em "novidade": a palavra contém em si toda uma lógica social (servindo também como pedra angular) e psicológica.






Nenhum comentário:

Postar um comentário